Blog do Henrique Szklo

Senhor Miyagi e a arte milenar de encerar carros

Hoje, o estudante quer decidir sozinho o que precisa e o que não precisa aprender. E mesmo aquilo que quer aprender não pode causar nenhum tipo de incômodo e desconforto

Workshop gratuito "Os 28 Algoritmos das Mentes Criativas"

Simplificando ao máximo, o propósito básico do ensino é transformar um animalzinho incontrolável em um cidadão. Prepará-lo para a vida real, com um leque abrangente de informações e, se possível, um mínimo de experiências pessoais. Portanto, a preocupação de educadores e pedagogos é criar ambientes e processos que estimulem ao máximo o potencial dos alunos, tentando diminuir a distância quilométrica entre o ambiente seguro da escola e a selva do lado de fora.

Sempre me utilizei do chamado edutainment como processo de aprendizado em minhas aulas, que é, sem dúvida, uma arma poderosa de estímulo ao aprendizado. O humor também é parte integrante de minha teoria e do meu método, porém, sei também que o desenvolvimento de uma mente verdadeiramente criativa não se faz apenas com momentos lúdicos, de divertimento e descontração.

Na educação moderna o papel do professor está mudando radicalmente. Antes, respeitar o mestre era uma obrigação. Agora, o professor precisa se fazer respeitado se quiser dar aula. Acho ótimo. É o crepúsculo dos mestres carrascos. Apesar do desgaste da palavra, “facilitador” é a definição que mais se aproxima da nova ordem estabelecida. Agora o protagonismo é do estudante, o que acho muito justo. Porém, penso que atualmente está se dando um espaço exagerado para os alunos. Espaço que eles não têm competência nem critério para ocupar.

…o desenvolvimento de uma mente verdadeiramente criativa não se faz apenas com momentos lúdicos, de divertimento e descontração.

Hoje, o estudante quer decidir sozinho o que precisa e o que não precisa aprender. E mesmo aquilo que quer aprender não pode causar nenhum tipo de incômodo e desconforto. Aí entra minha questão: tratar o aluno como alguém que não pode ser desafiado, confrontado, criticado, contrariado, exigido, pressionado, responsabilizado, está de acordo com um projeto de construção de cidadania? Ou da criação de uma geração de bundas-moles? Parte disso, eu sei, é culpa dos pais, que reclamam da escola e dos professores quando seu rebento se sente incomodado com alguma coisa. Na verdade não é culpa dos pais. É da sociedade como um todo que transformou alunos em clientes. E clientes, todo mundo sabe, têm sempre razão.

Não, a culpa não é só dos pais ou da sociedade. É das redes sociais. Ou melhor, os robôs que trabalham para as redes sociais. Melhor ainda: quem programa os robôs, cuja missão é sugar a alma de todos os seres humanos oferecendo pesadas doses de dopamina, um dos hormônios do prazer. E para isso só mostram aquilo que a pessoa já demonstrou que gosta. Ou que tem potencial de gostar. Nada de incômodos. Nada de coisas desinteressantes, estressantes, contraditórias, diferentes daquilo que se acredita.

Quando esta lógica extrapola o ambiente digital e atinge o dia-a-dia, o estrago é imenso. Do ponto de vista da educação, cria-se a falsa sensação de que só se deve estudar aquilo que se gosta. Matéria chata não! Matéria que eu não sei em que situação eu vou usar, também não! Matéria que dá muito trabalho aprender? Mil vezes não! E, nos extremos, multiplicam-se os casos de agressão física a professores que não agradam ao gosto dos alunos.

No mundo ideal, o sistema educacional deveria parir milhares, milhões de livres-pensadores, prontos para conquistar o mundo. Mas no mundo real, as parteiras estão meio sem trabalho. Sem apelar para teoria da conspiração, o que se quer mesmo é criar um contingente ilimitado de mão-de-obra especializada. Repare que eu disse mão-de-obra e não cabeça-de-obra. O questionamento, a reflexão, o pensamento original só são venerados nos livros de autoajuda e nas redes sociais. Mas muito poucos praticam de verdade.

Pode parecer uma contradição, mas para criar livres-pensadores não se pode deixa-los pensar o que quiserem. É preciso orientá-los até que encontrem seu caminho. É preciso provocar reflexões, estimular o questionamento, confrontar ideias sem paternalismo, exercitar argumentação, cobrar coerência, exigir originalidade. E nada disso é agradável. Ao contrário, é muito desconfortável. Pensamentos originais nos colocam em uma posição muito difícil em relação às outras pessoas. Temos muito medo da opinião dos outros. Não é todo mundo que têm estrutura emocional para aguentar a pressão social relacionada à manutenção do estado de coisas. E ninguém desenvolve estrutura emocional sem passar por momentos difíceis. Por isso acredito que a escola é uma das responsáveis por colocar os alunos em situações difíceis. Volto à pergunta: qual é o propósito da educação?

Pensamentos originais nos colocam em uma posição muito difícil em relação às outras pessoas. Temos muito medo da opinião dos outros.

No caso específico da criatividade, o buraco é bem mais embaixo. Simplificando de novo, criatividade é eminentemente solução de problemas. E quanto maior o problema, mais criativo é preciso ser para solucioná-lo. A questão é que a necessidade de criar dificilmente se dá em ambiente ideal, mas, ao contrário, em momentos e situações limitantes e de grande pressão. É claro que é bom estimular os alunos por meio de projetos nos quais eles se engajam e se dedicam. Mas que tal acrescentar um pouco de pimenta à receita para deixar a experiência mais desconfortável, porém muito mais saborosa.

Eu sou um velho ranzinza que acha que a educação deve ser renascentista. Informação em excesso não é problema. O contrário é. Do ponto de vista específico da criatividade, quanto mais informações você tiver, maior será sua capacidade de gerar conexões e, portanto, de criar. Mas que informações? Tem uma lista aí? Não, não tenho. Essa visão utilitarista do mundo atual é um câncer agressivo. O prazer de acumular informações é a chave da transformação. Não importa pra quê. É por curiosidade. Por gostar de saber como são as coisas. Saber os porquês. Elitizar o conhecimento é sinal de ignorância. Devemos aprender o tempo todo, de todos, de tudo. Mesmo que a gente nunca precise usar um dia.

De vez em quando me aparece um aluno reclamando da forma como está sendo ensinado, apesar de desconhecer totalmente o processo. Não sabe que o desenvolvimento da capacidade criativa é cognitiva, portanto não perceptível pelo exigente crivo da lógica ou dos processos tradicionais de aprendizado. Eu, como professor de criatividade, tenho a obrigação de incomodar. De instigar. De provocar. Se não o fizer, estarei sendo leviano e desonesto, além de trair o legado de Leonardo DaVinci.

Para este aluno eu dou o exemplo do Karatê Kid, que o senhor Miyagi fez ficar um mês polindo um carro sem saber o porquê. O senhor Miyagi é meu ídolo. Meu modelo de professor. Tanto quanto ele, acredito que é muito mais importante e eficiente não saber os porquês antes, mas depois. Se souber antes, o aluno vai direcionar suas ações para tentar encaixá-las no que ele acha que se espera dele, o que seria o “certo” a se fazer. Ao passo que se tiver que caminhar de olhos vendados, ele terá de reagir instintivamente. Um processo que ajuda a aprofundar a compreensão e o aprendizado. Aqui vai outra referência cinematográfica: Luke Skywalker aprendendo a usar o sabre de luz. Obi-wan Kenobi também tem um cantinho especial no meu coração.

O acerto é ilustrativo e superficial. O erro é cognitivo e marcante.

É fundamental o aluno confrontar o que fez com o que poderia ter feito. Essa experiência ninguém esquece. Falhar ainda é a melhor ferramenta de aprendizado. Não suportamos estar “errados”, então a lembrança da falha ficará guardada por muito mais tempo e com muito mais força do que a lembrança do acerto, que, muitas vezes nem sabemos como chegamos lá. Portanto, não haverá aprendizado profundo. O acerto é ilustrativo e superficial. O erro é cognitivo e marcante. Cabe ao professor não demonizar a falha, ao contrário. Não é um processo para acabar com a autoestima dos alunos, mas para garantirmos que as experiências não sejam esquecidas. E o aprendizado por experiência ganha de goleada para o aprendizado de repetição.

Em meu método de aprendizado, além de promover experiências, eu forço a falha o máximo que posso. Não é confortável, mas quem disse que evoluir é abraçar um ursinho de pelúcia? Confesso que fico um pouco decepcionado quando meus alunos matam as charadas que proponho, mas quando isso acontece, aprendo mais uma coisa.

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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