O que podemos aprender

Uma loja Prada no meio do deserto que não é coisa do diabo

Uma exposição não-oficial de uma das mais importantes marcas do mundo

Interior da loja falsa

Não é bem uma loja, mas uma loja “falsa”, um simulacro. Na verdade, uma instalação artística, com uma clara mensagem de viés crítico. Foi inaugurada dia 1º de outubro de 2005 em um trecho isolado dos EUA, a 90 quilômetros da cidade de Marfa, no Texas.

Só que a iniciativa não teve nada a ver com a Prada. Entretanto, os artistas escandinavos Michael Elmgreen e Ingar Dragset, autores do projeto, nomeado de “Prada Marfa”, utilizaram uma coleção oficial de bolsas e calçados, fornecida pela própria Miuccia Prada, dona da marca.

Ela não só forneceu as peças como autorizou os artistas a usar o nome e a marca em sua exposição, que respeita o design minimalista das lojas reais da Prada. Olhando de relance, parece até uma loja de verdade. Só que mirando com mais atenção, percebemos que a “loja” não tem porta de entrada.

O mais surpreendente, entretanto, foi a intenção dos artistas com sua obra. Segundo Elmgreen “Foi concebido como uma crítica à indústria de artigos de luxo, colocando uma loja no meio do deserto. Mesmo assim a Prada simpatizou com a ideia de ser criticada”.

Uma ideia que foi um tiro certo

O fato de a exposição existir no meio do deserto no Texas também fez parte de sua mensagem. O projeto custou 80 mil dólares e foi construído com materiais biodegradáveis “ecologicamente corretos” e nunca foi planejado para ser consertado ou exigir manutenção. A ideia é que ela irá lentamente se transformar em esquecimento ao longo do tempo. Outra crítica, desta vez à superficialidade da moda e à cultura consumista.

Porém, uma ação inesperada os fez mudar de ideia. Na noite em que a exposição foi instalada, ladrões invadiram o local e roubaram todo o valioso estoque. Apesar de sua intenção original de deixar as coisas sem interferência, os artistas decidiram voltar e reparar a exposição, substituindo os itens roubados com mais itens Prada.

No final das contas, a instalação foi reclassificada como museu e se transformou num ponto turístico popular, com pessoas de todo o país vindo ver a estranha loja Prada no meio do nada, conquistando o status de ter sua própria página no Tripadvisor.

O que você pode aprender

  • Quem se leva a sério demais, corre o risco de não se dar conta dos problemas que todo mundo enfrenta, tanto empresas como pessoas.
  • A auto-crítica é uma atitude fundamental para quem pretende se manter no topo por mais tempo. É preciso despojamento e, acima de tudo, coragem. Não é pra qualquer um. Palmas para a Prada.
  • Nem todas as mensagens precisam ser objetivas e literais para que tenham efeito. Na verdade, ao contrário. Quanto mais sutis, mais consistentes e poderosas. Isso porque as pessoas valorizam mais as ideias que as obriga a fazer exercícios intelectuais, e, ao entender o propósito da ideia, sintam-se inteligentes e, obviamente, orgulhosas de si mesmas.
  • O projeto da Prada Marfa dos artistas escandinavos têm o mérito de apresentar uma profunda crítica ao consumismo, aos produtos de luxo e à superficialidade da moda de forma original, inusitada e corajosa, já que a Prada poderia não ter sido tão receptiva à ideia.
  • Umberto Eco dizia que depois que o artista termina sua obra e a expõe para as pessoas, ela deixa de ser dele. Não existe uma forma única de se interpretar uma obra de arte. Cada um entende conforme seus próprios padrões. E tudo mundo está certo. O fato de o projeto ter tomado um caminho diferente do desejo original dos artistas não deve ser visto como um problema, mas como uma vitória de valor inestimável.
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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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