O que podemos aprender

Uma aula de semiótica em formato de clipe

Rap de Childish Gambino é de uma riqueza simbólica incomum

Quando assistimos o clipe do rap “This is America” doChildish Gambino, alterego do multitalentoso Donald Glover, o impacto é imediato. Dirigido por Hiro Murai, japonês que trabalha em parceria com Glover em vários projetos, é de uma riqueza visual que atordoa mesmo sem a gente perceber as inúmeras referências e mensagens ocultas que são utilizadas.

A linguagem corporal de Gambino chama a atenção já nos primeiros segundos do vídeo. As expressões faciais, os movimentos do corpo fisgam nosso olhar por sua ironia e originalidade. Queremos ver mais. É divertido. É trágico. É brutal.

Um projeto que não economiza em criatividade

O vídeo transborda de metáforas, mas, num primeiro momento só entendi as universais. Quando fui ler sobre o fenômeno em outros sites, descobri que existem múltiplas referências relativas à cultura negra, principalmente à estadunidense. Quando descobrimos o que é a América, a nota aumenta.

O multitalentoso Donald Glover

Ator, humorista, roteirista, produtor, cantor, compositor, DJ e músico e rapper (com seu personagem Childish Gambino), já recebeu 2 Emmys (Ator e Direção) e um Globo de Ouro (Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical).

Foi roteirista da série 30 Rock e fez vários papéis no cinema. No mais recente, incorporou o jovem Lando Calrissian da franquia Star Wars.

Numa entrevista para a TV, revelou como surgiu o nome de seu alterego do rap, Childish Gambino: usando um gerador de nomes da internet, o Wu Tang Name Generator 


Mensagens, Referências, Metáforas e Significados Ocultos

Não são afirmações, apenas um apanhado de opiniões (minhas e de um monte de gente na internet)

  • Como um todo, o video e a música tratam da violência nos EUA, notadamente contra os negros, utilizada como entretenimento e distração.
  • As calças que Gambino veste são comparadas às do Exército Confederado, que na guerra da Secessão Americana lutava contra a abolição da escravatura.
  • O negro tocando uma música alegre no começo é, em seguida, executado com um tiro na cabeça (coberta por um saco), representando que a alegria inata dos negros não os eximiu ou protegeu da brutalidade.
  • A careta e posição do corpo de Gambino na hora em que ele atira neste homem faz referência a um personagem chamado Jim Crow, que, de forma preconceituosa e jocosa, estereotipava os negros no início do século passado utilizando, entre outros artifícios, o blackface.
  • Após Gambino atirar, um homem servil vem com um lenço vermelho e recolhe a arma com todo cuidado. Já o morto é arrastado no chão, displicentemente. Essa é fácil: signfica que os Estados Unidos dão mais valor às armas do que às pessoas. Alguns dizem que o lenço vermelho representa o partido Republicano, conservador e contra a lei do desarmamento.
  • Dançarinos ignoram o caos e a violência atrás e vice-versa pode significar que os negros utilizam a música e a dança para tentar mitigar a violência ininterrupta.
  • As danças foram inspiradas em vários clipes virais, especificamente o Gwara Gwara, original da África do Sul, fazendo referência ao apartheid. A propósito, a coreografia foi criada por Sherrie Silver, vinda de Ruanda.
  • Coral metralhado faz referência a um dos infinitos massacres por armas nos Estados Unidos, na Igreja de Charleston, Carolina do Sul, em 2015, motivado por racismo. Mais uma vez a arma é recolhida com deferência.
  • Um cavalo branco passa atrás. Muita gente sugere que é um dos cavaleiros do apocalipse, mas não comprei esta ideia.
  • A letra faz referência aos negros entretendo a sociedade em troca de dinheiro, ou seja, se vendendo, enriquecendo e divertindo os brancos.
  • Na última cena, Gambino correndo apavorado, fugindo de uma turba, representa que apesar de tudo, a violência contra negros continua. É também referência ao filme “Corra”, dizem.

Se você reconheceu outras referências e significados ocultos, poste nos comentários aí embaixo.

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O que você pode aprender

  • Use muitas referências e não se preocupe se as pessoas vão reconhecê-las ou não. Por algum motivo, talvez o inconsciente coletivo, a ideia ganha força e riqueza com referências inteligentes, coerentes com o tema e, não se esqueça, sutis. É só pensar no mershandising de novelas da Globo que você aprende a como não fazer.
  • O mito de que hoje em dia para conseguirmos impactar as pessoas, que estão sem tempo para nada, precisamos de uma mensagem simples, objetiva e de compreensão imediata, é apenas um mito. O clipe acima é uma obra barroca. Para se (tentar) entender todas as mensagens visuais e da letra é preciso assistir várias vezes. E mesmo assim, talvez nunca consigamos. O que é excelente para se transformar em uma peça importante da cultura pop com muita gente discutindo as verdadeira intenções do artista por anos e anos.
  • É muito mais impactante e poderoso insinuar do que dizer na lata. A contundência da crítica de Gambino se dá por metáforas inteligentes e até.divertidas para tratar de um assunto tão incômodo quanto dramático.
  • O humor bem construido é uma ferramenta demolidora quando se trata de assuntos emocionalmente profundos, difíceis e pesados como ensinou o mestre Charlie Chaplin.
  • Autocrítica é uma ferramenta poderosa na construção de credibilidade e na validação de seus argumentos. Você demonstra ao interlocutor que não está fazendo a defesa de si mesmo e sim de uma ideia.
  • Não deixe tudo mastigado para seu publico-alvo. Faça com que eles tengam de completar as lacunas por conta própria. As melhores ideias são aquelas que de tão ricas e sutis ao mesmo tempo, acabam gerando uma infinidade de interpretações. E o melhor: todas válidas.
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Letra (inglês)

Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, go, go away
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, go, go away
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, go, go away
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
Yeah, yeah, go, go away

We just wanna party
Party just for you
We just want the money
Money just for you
I know you wanna party
Party just for me
Girl, you got me dancin’
Dance and shake the frame

We just wanna party
Party just for you
We just want the money
Money just for you
I know you wanna party
Party just for me
Girl, you got me dancin’
Dance and shake the frame

This is America
Don’t catch you slippin’ up
Don’t catch you slippin’ up
Look what I’m whippin’ up
This is America
Don’t catch you slippin’ up
Don’t catch you slippin’ up
Look what I’m whippin’ up

This is America
Don’t catch you slippin’ up
Look at how I’m livin’ now
Police be trippin’ now
Yeah, this is America
Guns in my area (word, my area)
I got the strap
I gotta carry ’em

Yeah, yeah, I’ma go into this
Yeah, yeah, this is guerilla, woo
Yeah, yeah, I’ma go get the bag
Yeah, yeah, or I’ma get the pad
Yeah, yeah, I’m so cold like, yeah (yeah)
I’m so dope like, yeah
We gon’ blow like, yeah (straight up, uh)

Ooh-ooh-ooh-ooh-ooh, tell somebody
You go tell somebody
Grandma told me
Get your money, black man (get your money)
Get your money, black man (get your money)
Get your money, black man (get your, black man)
Get your money, black man (get your, black man)
Black man

This is America (woo!)
Don’t catch you slippin’ up (woo, woo, don’t catch you slippin’, now)
Don’t catch you slippin’ up
Look what I’m whippin’ up (slime!)
This is America (yeah, yeah)
Don’t catch you slippin’ up
Don’t catch you slippin’ up
Look what I’m whippin’ up

Look how I’m geekin’ out
I’m so fitted (I’m so fitted)
I’m on Gucci
I’m so pretty (yeah, yeah)
I’m gon’ get it (ayy, I’m gon’ get it)
Watch me move
This a celly
That’s a tool
On my Kodak (woo, Black)
Ooh, know that (yeah, know that, hold on)
Get it? (Get it? Get it?)
Ooh, work it (21)
Hunnid bands, hunnid bands, hunnid bands (hunnid bands)
Contraband, contraband, contraband (contraband)
I got the plug on Oaxaca
They gonna find you like blocka

Ooh-ooh-ooh-ooh-ooh, tell somebody
(America, I just checked my following list and)
You go tell somebody
(You mothafuckas owe me)
Grandma told me
Get your money, black man (black man)
Get your money, black man (black man)
Get your money, black man (black man)
Get your money, black man (black man)
Black man

One, two, three, get down
Ooh-ooh-ooh-ooh-ooh, tell somebody
You go tell somebody
Grandma told me
Get your money, black man (black man)
Get your money, black man (black man)
Get your money, black man (black man)
Get your money, black man (black man)
Black man

You just a black man in this world
You just a barcode, ayy
You just a black man in this world
Drivin’ expensive foreigns, ayy
You just a big dawg, yeah
I kenneled him in the backyard
No, probably ain’t life to a dog
For a big dog

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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