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Blade Runner desagradou todo mundo: menos os fãs

Quando assistimos ao filme, não imaginamos os problemas por trás do clássico

A inspiração, mas não muito

O clássico da ficção científica Blade Runner, uma obra-prima na opinião de muitos, fica muito mais saboroso quando tomamos conhecimento do que aconteceu nos bastidores. Ao contrário do que muita gente acredita, as grandes obras nem sempre são resultado de uma conspiração do mundo a favor de sua realização. A harmonia não é condição para o trabalho criativo. Muitas vezes, é justamente o inferno que dá aquela pitada de carisma e identidade forte e marcante a uma ideia. E nesse contexto, Blade Runner também é um clássico.

Antes das fofocas, vamos relembrar: o filme, foi baseado no romance de Philip K. Dick “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (Os androides sonham com ovelhas elétricas?, em tradução livre), também um clássico do movimento cyberpunk. A história se passava no século XXI (2019, pasme) e girava em torno de uma espécie de policial que caçava androides idênticos aos humanos que, rebeldes e violentos, insistiam em viver mais do que os anos pré-programados. O clima previa um futuro sombrio e perturbador, chamado de distópico.

O mundo distópico de Blade Runner

A distopia no presente

Entre outras dificuldades, os protagonistas Harrison Ford e Sean Young se odiavam e a equipe de filmagem odiava o diretor Ridley Scott.

Hampton Fancher, o principal roteirista de Blade Runner, comentou que Dick, autor do livro, teve grande dificuldade de lidar com os roteiristas em função de sua visão nada comercial. A verdade é que nem o diretor Scott, nem o roteirista Fancher achavam que o livro dele era bom o suficiente. Porém, conseguiram enxergar uma história comercializável e dentro dos preceitos de Hollywood escondida em suas páginas. Ou seja, antes de começar a filmagem, já surgia o primeiro e simbólico conflito: entre o filme e o livro que o inspirou.

Os protagonistas se odiavam

As filmagens se atrasaram, Ridley Scott não estava acostumado com as regras sindicais das equipes de cinema americanas, e ele não estava com um bom estado de espírito porque seu irmão Frank Scott tinha acabado de morrer.

Vários executivos de estúdio ficaram furiosos com Scott por ultrapassar o orçamento, enquanto o roteiro original de Hampton Fancher foi reescrito várias vezes por várias pessoas antes, depois e durante a produção. Escrevendo para o The Guardian em 2015, Michael Newton afirma que “não há um Blade Runner, mas sete.”

A primeira versão, lançada em 1982, chamada de “Teatral” desagradou praticamente todo mundo, principalmente Ridley Scott e Harrison Ford.

O diretor Ridley Scott e Harrison Ford

A discussão sobre a locução em off

A história mais comentada do filme, que ajuda a alimentar seu folclore é que o diretor Ridley Scott foi forçado pelo estúdio a colocar a narração para tornar o filme mais compreensível para um espectador médio. Ford também gravou o texto com inequívoca falta de vontade. Entretanto, Fancher já disse que “Scott queria criar um clima de thriller de detetives dos anos 40, então ele gostou da ideia de usar essa característica típica do cinema noir.

Mas então, ele queria ou não?

Na verdade ele queria a locução, mas não a que foi aprovada pelo estúdio. Havia duas outras dublagens que nunca foram usadas e Ridley Scott parece ter mudado de ideia várias vezes durante a produção. A narração que foi usada no lançamento do filme “Teatral” – a que a Ford odiava – foi a terceira gravada.

Versão do diretor

A versão do diretor

Quando foi lançada a versão de Scott, 10 anos depois, a locução em off foi descartada e cenas inéditas foram adicionadas. Os fãs gostaram e muitos acharam que era melhor que a versão original. Mas o produtor Michael Deeley acredita que essa reação só ocorreu porque as pessoas já tinham visto a versão com a narração, portanto não é possível saber se entenderiam da mesma maneira se só tivessem assistido a versão do diretor.

Crise de identidade

O nome Blade Runner não foi tirado do romance de Philip K. Dick. Mas de um livro de William S. Burroughs ironicamente chamado de “Blade Runner: um filme”, ​​que é uma adaptação de outro romance, chamado The Bladerunner pelo menos conhecido autor de ficção científica, Alan E. Nourse.

Se você assistiu aos filmes, conhece as dúvidas que ficaram no ar. Deckard é um replicante ou uma pessoa “real”? Até mesmo Scott e Ford discordam. Enquanto o diretor acredita que Deckard era mesmo um replicante, Ford está convicto de que era um humano. Pelo visto, a falta de certezas é um excelente ingrediente para as grandes obras.

O confronto final

O Iluminado

Mais uma curiosidade. A cena final da primeira versão (imagem aérea de montanhas sob um céu ensolarado) não foi filmada por Ridley Scott, nem fazia parte do projeto. O diretor pegou emprestado uma cena de O Iluminado de Stanley Kubrick. Mais um item para a galeria de excentricidades do clássico da ficção científica.

O que você pode aprender

  • Basicamente, que no campo das ideias ninguém sabe o que dá certo ou não. Ser caprichado ou feito nas coxas, ter muito dinheiro ou pouco, uma realização caótica ou harmônica, nada é garantia de nada. As variáveis são múltiplas e muitas vezes desconhecidas.
  • Existem vários exemplos de obras-primas com histórias parecidas à esta do Blade Runner. Não que devamos buscar o caos de forma proposital, mas também não considerarmos que o excesso de obstáculos sejam um aviso do universo de que estamos no caminho errado.
  • Nem sempre a visão do criador é a melhor. A despeito da opinião dos fãs, o verdadeiro clássico encontramos na versão do estúdio, ou seja, a “teatral”. Não há como saber, mas quem garante que se o filme fosse como Scott queria, se transformaria nesse fenômeno pop?
  • Muitas perguntas ficaram no ar na primeira versão, gerando discussões que permanecem até hoje. Será então que as ideias vencedoras não são aquelas que dão todas as respostas prontas? Existem muitas obras que geram este mesmo fenômeno. Em breve faremos um post sobre este assunto.
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Fonte
Den of Geek
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Lena Feil

Gaúcha de nascimento e cidadã do mundo por opção, é formada em Desenho Industrial e Psicologia, é feminista e pensadora em período integral. Usa o cérebro para entender o cérebro. Estudiosa do comportamento e da criatividade, entusiasta da vida, viciada em novidades, em filosofia, no ser humano e em coisa mundanas também. É absolutamente fascinada por crianças, adora café, ama viajar, é geralmente divertida, e – às vezes – esnobe. Hoje, atua com Coolhunter da Escola Nômade para Mentes Criativas, sempre em busca do que existe de mais subversivo, inteligente e relevante em todas as partes do mundo.

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