ProXXIma Parada

É melhor reinar no inferno do que servir ao SEO

Diante deste cenário sombrio quero me declarar publicamente como ateu digital. Quer saber, prefiro que só as pessoas que estejam interessadas legitimamente em meu site o visitem. Não preciso de um bando de estranhos invadindo meu sítio por orientação do deus Google

Muito se tem discutido sobre a possibilidade de as máquinas com Inteligência Artificial dominarem o mundo. Primeiro nos escravizar para depois, ao concluírem o óbvio – que não servimos pra nada –, nos eliminar para sempre. Ou fazer aquela coisa da Matrix, usando a gente como pilhas alcalinas com braços e pernas.

Mas mesmo os mais pessimistas acreditam que ainda temos tempo e que este apocalipse tecnológico só acontecerá daqui a uns pares de anos. Mas sinto dizer que eles estão enganados. Muito enganados. Pavorosamente enganados. O processo de escravização já começou e não é modesto. Primeiro: você nunca se perguntou por que o endereço do seu site se chama domínio? Hein?
Milhões, talvez bilhões já estejam sob os grilhões digitais de máquinas com segundas intenções e planos diabólicos. E uma de suas garras mais afiadas chama-se SEO. Pra quem não sabe, quer dizer Search Engine Optimization, ou otimização para mecanismos de busca. Um nome singelo e inofensivo que na verdade guarda segredos inconfessáveis.

A função do SEO, para simples mortais, é aumentar o volume do tráfego orgânico e garantir mais visibilidade para as páginas na web. Bull shit. O que eles querem mesmo é nos doutrinar, nos controlar e nos obrigar a dizer apenas o que eles querem. Tirar nossa criatividade, livre-arbítrio e liberdade. Agora, expressar o que queremos, nosso pensamento, nossas ideias, utilizando nossa criatividade, nossa intuição, é um erro imperdoável.

O SEO nos faz pensar que se formos comportados e fizermos tudo o que ele manda, seremos recompensados. Estamos trocando nossa liberdade por otimização: alcançar bons rankings nas páginas de resultados, gerar tráfego, melhorar a experiência do leitor e conquistar bons posicionamentos orgânicos. É muito pouco para se vender. E pior: estamos nos escravizando por vontade própria. Ninguém nos obriga a aceitar a ditadura do SEO. É o gado se encaminhando para o abate por decisão própria, com alegria e sensação de ser muito esperto.

No que nos transformamos? Puxa-sacos de robô? Lambe-botas de motor de busca? Capachos de meta-dados? Tenha santa paciência! Ao seguir o doutrinamento do SEO você, programador, faz sempre questão de gerar uma URL amigável, não é mesmo? Mas por que precisa ser amigável? Por que não pode ser uma URL meio grosseira, antipática, mal educada até? Tá com medo de deixar o robô bravinho e como vingança te colocar na vigésima quinta página do Google? Você é um frouxo. Não honra essa camiseta do DC Comics que veste.

O SEO quer que pelo menos uma palavra-chave apareça no primeiro parágrafo do texto. Que o assunto seja identificado imediatamente. Que o título da página contenha uma palavra-chave, mas que se ela não aparecer no começo do texto a gente tente mudar sua posição para o início. Que é isso? Curso de Redação? De um robô? Não que a maioria das pessoas saiba escrever um texto razoável, mas isso é problema nosso, seres imperfeitos de carne e osso. Não precisamos de ninguém que nem fez o ensino médio nos dizer como se escreve um bom texto. Que saudade da Tia Zuleide…

E a interferência do “professor” SEO não para por aí. O título precisa ter mais ou menos 55 caracteres e ser objetivo. E o texto também, precisa ter no mínimo 300 palavras. Ou seja, se eu quiser escrever um texto de 100 palavras eu sou um bosta e mereço o ostracismo. Se assim for, os poetas japoneses autores de hai-kais vão encarar, no mínimo, a pena de morte.

Estamos diante de novas tábuas da lei. E deus, no caso, é o Google, auxiliado por seus anjos, os robôs. O SEO tem o papel de interface entre o divino e o homem comum, ou seja, é o sacerdote desta seita malévola. Ele é o pastor dos carneiros que somos nós.

Diante deste cenário sombrio quero me declarar publicamente como ateu digital. Quer saber, prefiro que só as pessoas que estejam interessadas legitimamente em meu site o visitem. Não preciso de um bando de estranhos invadindo meu sítio por orientação do deus Google. Este zumbis que vão para onde seu mestre mandar. Abriram as portas do hospício. Não, não quero ser escravo nem venerar nenhum robô. Quero ser eu mesmo, ter liberdade para me expressar como quiser. Morro de fome mas não me curvarei jamais aos gráficos de visitação e conversão.

Quero ter a liberdade de fazer o trocadilho que fiz no título sem medo. E pensar em outros como “o SEO pode esperar”, “o SEO é o limite”, “assim na terra como no SEO” ou ainda o provocativo “há mais coisas entre o SEO e o Google do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Você pode até dizer que a pronúncia correta é “és-i-ou” e não céu, e que, portanto, é um trocadilho muito ruim. Como resposta lhe digo que os robôs não estão nem aí para a qualidade dos trocadilhos. Por isso mesmo eles podem até serem classificados como long tail keywords, já que além de possuírem uma concorrência menor, produzem tráfego mais qualificado. E aí?

Artigo publicado originalmente no site Proxxima, Meio & MensagemVer aqui

 

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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