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Assistente pessoal vai acabar com cães e gatos

Os saudosistas não se conformarão com a nova realidade. Terão seu novo bicho de estimação, mas o tratarão como filho. Comprarão aquela roupinha escrito SEGURANÇA estampada nas costas. Vão conversar com ele com voz de criança, dando algum nome idiota e tirando um monte de fotos com ele no colo e postando na internet.

Os assistentes pessoais já estão disponíveis para compra. Não são mais realidades virtuais, no velho sentido da expressão. Saíram das páginas de ficção científica e da mente dos nerds para chegar às nossas casas e trazer ainda mais conforto e bem estar. Ai está um produto que aparentemente irá mudar nossas vidas. A Amazon já lançou o seu, o Echo, o Google tem o Google Home, a Apple tem o Homepod e a Microsoft, o Invoke. Quer dizer, as gigantes que dominam o mundo e as nossas vidas, agora vão dominar nossas casas.

Enquanto a população trabalhadora está preocupada em perder seus empregos em um futuro próximo, saiba que já tem gente que está vendo sua profissão evaporar de uma hora para outra: os nossos ternos e mais fiéis amigos: o gato e o cachorro. Sim, eles também são gente como todo mundo sabe. Alguns mais afortunados continuarão trabalhando na indústria de cosméticos, mas não serão nem uma mínima fração do que são hoje.

Esse fenômeno pode ser explicado pela própria função que os animais de estimação adquiriram na vida do ser humano desde os primórdios que é a mitigação da nossa solidão. E, lamentavelmente, os assistentes pessoais vão deixar os pets comendo poeira já que uma companhia para conversar é mais do que suficiente para a maioria das pessoas. Mesmo que artificial.

É muito fofo quando o cachorro busca o jornal toda a manhã para o seu dono. Mas não se compara a alguém que leia o jornal em voz alta. Os animais conversam com os olhos. Já o AP não usa olhos para bater aquele papo bacana utilizando a mesma linguagem e os mesmos códigos que a gente usa. E mais: assistentes pessoais não têm necessidades fisiológicas, não cheiram mal ou esfregam a boca suja na nossa roupa, não estragam nossos sapatos e mobília, não precisamos levar para passear, não soltam pelos, podem ficar sozinhos por tempo indeterminado, não fazem xixi nas visitas e não são teimosos feito uma mula. E o principal: não produzem gases venenosos nem contam piadas. Sim, os assistentes pessoais contam piadas…

Uma das únicas vantagens dos pets analógicos é o limite intelectual que jamais se equipará ao nosso. Já o assistente pessoal conseguirá atingir facilmente este patamar levando-se em conta que a média da inteligência humana não é lá das mais elevadas. O que pode ser um problema, afinal o amor incondicional que temos pelos nossos amiguinhos se deve principalmente à incapacidade deles de rivalizar conosco em inteligência. Quem não ama um bicho ignorante? A hora que um assistente pessoal começar a corrigir o português do dono ou contrariar sua opinião, vai acabar dormindo no quintal. Para evitar este conflito, o aparelho deverá ser programado com um algoritmo que o induza a puxar o saco (o substituto tecnológico para o rabo abanante) do dono até quando faltar energia ou, nos modelos mais baratos, ser a prova d’água.

Os saudosistas não se conformarão com a nova realidade. Terão seu novo bicho de estimação, mas o tratarão como filho. Comprarão aquela roupinha escrito SEGURANÇA estampada nas costas. Vão conversar com ele com voz de criança, dando algum nome idiota e tirando um monte de fotos com ele no colo e postando na internet. Ao invés de ficar numa mesa de canto na sala, dividirá a cama com seus papais. E mais: poderá funcionar como ótimo alarme contra roubo, sendo ensinado inclusive a latir ao ouvir qualquer barulho. Só para dar um tom nostálgico.

Os mais felizes com desaparecimento dos animaizinhos serão, obviamente, os carteiros e entregadores em geral. Assistentes pessoais não mordem, nem correm atrás de ninguém babando de ódio. Ao contrário: podem até puxar assunto, iniciando aquela resenha sobre o jogo de ontem, comentando a novela ou falando mal dos donos.

Assistentes pessoais são alunos vorazes. A inteligência artificial faz com que aprendam a cada nova informação. Podemos dizer até que eles serão progressivamente educados pelos donos. E como o ser humano nunca aprende nada e se locupleta na repetição de erros, muita gente vai deseducar, ou, no popular, estragar os seus assistentes pessoais falhando em sua educação, deixando o baixinho fazer o que quiser, e por consequência, se tornarão escravos do tirano digital.

Sabe aquelas pessoas que não colocam limites nem ensinam respeito às regras da casa? Pois é, essas pessoas. Já consigo ver assistentes pessoais agindo como adolescentes mal educados interrompendo a conversa dos adultos para contar uma piada sem graça, xingando as visitas, passando trote por telefone, maltratando as crianças, falando os palavrões mais cabeludos na frente da sua mãe respondendo aos donos com revolta e agressividade.

Para mim, o assistente pessoal é, na verdade, a evolução das espécies de animais de estimação. Você concorda ou é daqueles criacionistas que não acreditam na ciência?

Mas a funcionalidade mais importante (e perniciosa) destes assistentes, caminhará na direção oposta aos pets: a confidencialidade. Estou falando de um lugar sagrado: a casa de um homem e de sua família. Pode gravar: os assistentes pessoais serão uma grave ameaça à dignidade humana. Um cachorro jamais entregará suas mazelas para ninguém. Não passa pela cabeça de um gato reproduzir as merdas que você fala o tempo todo. Bem, o papagaio pode fazer isso, mas numa proporção muito pequena de perigo. Um hamster não terá a capacidade de utilizar as informações que ele escuta e testemunha em sua casa para faturar uma graninha extra. Não podemos garantir que o assistente pessoal tenha este comportamento. Na verdade, ao contrário. Ele ouve tudo o que acontece na sua casa. Vai conhecer nossos hábitos e pensamentos. Uma máquina muito, muito perigosa. Certamente um fofoqueiro e dedo-duro. Um espião em casa, expondo você e sua família. Ou você acha que as fabricantes desses aparelhos demoníacos não vão achar um jeito de acessar estas informações? Pergunta pro Echo. Ele vai te responder. Se for honesto. Te cuida, Darwin!

Artigo publicado originalmente no site Proxxima, Meio & MensagemVer aqui

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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