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Os 7 (principais) mitos da Criatividade, por Felipe Zamana

Exclusivo para Escola Nômade para Mentes Criativas

Para quem realmente busca compreender o fenômeno criativo, é preciso conhecer suas origens e facetas. Se for o que procura, descobrirá o universo da Criatividade e desvendar seus mistérios. Se não for, um beijo e aquele abraço.

Como decidiu continuar, irá perceber que algumas crenças que temos sobre Criatividade fazem parte do senso comum, pois fomos passivamente induzidos a acreditar nelas. Por isso, gostaria de começar com o que a Criatividade significa hoje, e não poderia falar melhor do que Paul & Kaufman:

“Poucas coisas moldam a experiência humana tão profunda e extensivamente como a Criatividade. Criatividade guia o progresso em cada esforço humano, desde as artes até as ciências, negócios, e tecnologia. Nós celebramos e honramos as pessoas por sua Criatividade, identificando célebres indivíduos, como também culturas e sociedades inteiras, em termos de suas conquistas criativas. Criatividade é o veículo da auto expressão e parte daquilo que faz ser quem nós somos.” Paul & Kaufman

Neste caso específico, os “mitos” nada mais são do que antigas definições de Criatividade. Ou seja, crenças comuns do que se acreditava ser a manifestação criativa. Para esclarecer isso de uma vez por todas, fiz o top 7 mitos da Criatividade. Muito bem, agora é importante entender o que significa mito: “é uma narrativa de caráter simbólico-imagético que, por vezes, é utilizado de forma pejorativa para se referir às crenças comuns”. Palavras da Wikipédia.

Tudo começa com os deuses. Antigamente a religião era a unica capaz de explicar a criação e, uma vez que era desejo dos deuses, o indivíduo era meramente um canal por onde ela se manifestava.

Para se ter uma ideia de como levavam isso a sério, muitos dos trabalhos artísticos (como esculturas e pinturas) não eram assinados ou atribuídos a alguém propositalmente, pois consideravam que aquela obra havia sido criada pelos deuses, sendo o homem apenas uma ferramenta para a criação.

Além disso, existiam as musas, consideradas como guias espirituais e fonte de inspiração para os “criativos”, ideia que de certa forma permanece até hoje quando dizemos que temos uma musa inspiradora. O lado bom é que, ao se deparar com a falta de inspiração para criar, podemos dizer que a culpa é da nossa musa que decidiu tirar umas férias.

Quem não curtia muito esse papo de Criatividade como inspiração divina era Aristóteles que, apesar de concordar com alguns pontos, considerava que as ideias surgiam dá própria mente humana, através de um processo de associação ou combinação de ideias (espere que já vamos falar sobre isso no Mito 5).

Com a ideia da inspiração divina em baixa, passou-se a acreditar que a Criatividade era fruto do próprio indivíduo, porém, interpretada como delírio ou loucura devido ao seu caráter espontâneo e irracional.

Essa teoria da loucura, real ou potencial, perdurou de forma onde a natureza irracional ou involuntária do ato criativo seria explicada patologicamente, ideia que ressurgiu no final do século XIX com a psicologia.

Além disso, ainda hoje as pessoas acreditam que a excentricidade está associada à personalidade criativa como marca registrada. Louco, não?

Nascemos criativos ou desenvolvemos a nossa Criatividade? Eis a questão.

Até hoje existem divergências em relação a isso. Mas de qualquer forma, para os estudiosos, enquanto muitas pessoas têm um talento ou outro responsivo à educação, o gênio criativo é genuinamente excepcional e alheio às regras, padrões, e limitações aplicadas aos talentosos.

Sim, já sei. Você deve estar pensando agora que talento é uma coisa e gênio criativo é outra, acertei? Pensaram nisso também, e no esforço para entender a diferença entre talento e genialidade, a Criatividade sofreria mudanças.

A ideia de gênio criativo se dissolveu, sendo o gênio uma coisa, e o criativo, outra. Talento e genialidade também se separariam em dois conceitos diferentes, onde a genialidade agora era reconhecida como um potencial disponível para todos os indivíduos, e tanto o potencial quanto a prática criativa dependiam do ambiente (conceito que só seria desenvolvido nos anos 60 por Mel Rhodes).

Essa ideia, de certa forma, ainda paira sobre nós. Para quem acompanha o portal, já deve ter lido sobre isso aqui.

Entretanto, no século XIX, com a ideia da inspiração divina descartada de vez, surgiria exatamente seu oposto, onde, baseado nas ideias de Charles Darwin, passou-se a acreditar que os indivíduos criativos herdavam os “genes criativos” de seus antepassados.

Suas ideias não só contribuiram para o avanço científico como também, ao abordar processos subjacentes ao processo da seleção natural, possibilitaram um novo panorama sobre as características da Criatividade.

Uma das consequências da teoria da evolução de Darwin foi a noção de ser a Criatividade humana manifestação da força criadora inerente à vida, em especial no que diz respeito à sua importância para o processo de adaptação. Ponto para Darwin.

A influência de Darwin não parou por ai. Francis Galton, considerado a primeira pessoa a conduzir uma pesquisa cientifica sobre a natureza da genialidade, também era fã de suas ideias e, graças às suas pesquisas, a Criatividade seria definitivamente colocada no campo da ciência. Ponto para Galton.

Além de Darwin, as ideias de Aristóteles a respeito do Associacionismo estavam de volta. Para Galton, as associações aconteciam no consciente e os pensamentos só podiam seguir o pensamento anterior, o que para ele era uma coisa positiva, porque os pensamentos tinham um caráter randômico.

Mas como não dá para agradar todo mundo, suas ideias seriam questionadas mais tarde pelos teóricos da Gestalt, que acreditavam que a Criatividade era muito mais do que apenas uma associação de ideias ou pensamentos.

Sob a perspectiva da Gestalt, o pensamento criativo consistia na formação e alteração das formas e padrões mentais, olhando para o problema através de diferentes pontos de vista, onde a solução para este problema seria denominada insight (e foi aqui que surgiu essa palavra que todo mundo gosta de usar quando tem uma ideia).

Qual é o lado criativo do cérebro, direito ou esquerdo? Tanto faz, afinal isso é mito (pejorativamente falando).

O que importa aqui é que os avanços no estudo do cérebro humano levaram às primeiras discussões acerca da interação entre os hemisférios do cérebro e, posteriormente, o inconsciente como responsável pelas ideias criativas, uma vez que se acreditava que elas se manifestam inicialmente de forma simbólica no nebuloso mundo do inconsciente.

No início do século XX, o processo criativo era tido como consequência de um sistema de defesa cerebral; o indivíduo é altamente criativo quando existe tensão entre os desejos do inconsciente e a realidade, sendo a Criatividade a forma de solucionar esses conflitos.

Daí para frente, a coisa só tomaria proporções ainda maiores. No final da década de 60, a personalidade criativa tornou-se o tópico mais falado pelos pesquisadores que, sabendo ou não, seriam a vanguarda de um novo tipo de individualismo, transformando todo tipo de “criativos” em heróis.

Pronto, agora que ser criativo é ser herói, todo mundo é criativo. #SóQueNão.

A primeira coisa a se entender é: Criatividade é ação, é verbo, é movimento. Não existe Criatividade na inércia. Para ser criativo, você precisa praticar; e, com o tempo, você será mais criativo (como fazer isso é história para outra hora).

E a segunda coisa é: a Criatividade não é onipresente. Não dá para ser criativo o tempo todo e em todos os lugares. Somos criativos em determinadas áreas, porque depende de quão bem dominamos aqueles assuntos. Sem sabedoria e conhecimento não existe Criatividade.

A Criatividade foi de puro misticismo e vontade dos deuses até chegar à compreensão de que é um elemento fundamental para a construção do conhecimento e desenvolvimento humano.

Neste sentido, os mitos da Criatividade nos mostram a crescente importância do fenómeno criativo e o seu impacto na sociedade.

Sim, a Criatividade também teve seus dias difíceis. Embora essas antigas definições sejam consideradas mitos, não anula sua importância e até mesmo sua relevância para o estudo da Criatividade, até porque ainda há muito que descobrir.

Qual é a sua dúvida inquietante sobre a Criatividade? Compartilhe!

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Referências

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Felipe Zamana

Felipe Zamana é Mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa em Portugal. É também Designer, Consultor, Professor e Palestrante TEDx Internacional. Criador do Criatividade a Sério, atualmente se dedica a explorar a Criatividade aplicada à Educação e ao Desenvolvimento Pessoal.

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