Professores Convidados

Artigo | O que Steve faria?

Exclusivo para a Escola Nômade para Mentes Criativas

“Conheci alguns gênios com quem era tão difícil trabalhar que tive que deixá-los ir embora; por outro lado, alguns de nossos funcionários mais brilhantes, agradáveis e eficazes foram demitidos por empregadores anteriores por não serem nada disso.”
Ed Catmull

Ser original é impossível. Não é difícil afirmar isso, já que para ser 100% original, genuinamente, deveríamos criar algo totalmente novo, sem copiar nenhuma parte do que criamos. A própria natureza é uma metáfora para isso. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Essa constante transformação que reina absoluta no planeta é o motor que mantém o seu brilho, a sua vivacidade. Não sabemos como se “originou” a natureza como a conhecemos hoje. Há teorias e conjecturas, mas certeza absoluta ainda não. Uma coisa que podemos afirmar, sem medo, é que a essência do processo de criação na natureza está intrinsecamente na sua “arte” de combinar e recombinar elementos. E a sua riqueza está exatamente nessa característica.

O novo é adaptativo.

Ed Catmull, presidente da Pixar Animation e da Disney Animation, autor do livro “Criatividade S.A.”

Quando a Pixar e a Disney começaram a “namorar”, criou-se um temor interno de como seria esse relacionamento, e de como seria um possível desfecho. Steve Jobs conhecia bem a história interna que reinou absoluta por décadas na Disney, após a morte de seu criador e mentor criativo. Walt era o espírito que mantinha a empresa em movimento. Sua energia guiava a equipe como um sol. Após sua morte ficou cunhado o termo “O que Walt faria?”, e esse foi o mote que conduziu a linha criativa da mais famosa produtora de entretenimento do mundo.

Infelizmente, não funcionou como o esperado.

Ao ler o livro Criatividade S.A., de Ed Catmull, atual presidente da Pixar Animation e da Disney Animation, fica claro como tudo aconteceu. Walt era um ser humano comum, mas as suas atitudes não. Seu talento foi combinar imaginação e saber escolher com quem trabalhar seus projetos.

Combinar ideias e pessoas é uma arte.

Mas, usar um mantra na esperança de evocar o espírito que já não está mais presente pode ser infrutífero. A maioria dos projetos de Walt funcionaram, pois ele tinha um jeito peculiar de dar asas às suas ideias. Sem a sua presença, foi necessária uma nova forma de fazer isso. Mas, a empresa acreditava que poderia “copiar” seu estilo de criação. O que se provou improdutivo com o passar do tempo.

O que Walt faria?

Quando Steve Jobs começou a negociar a parceria entre as duas empresas, a primeira coisa que procurou eliminar era o tal mantra: o que Walt faria? Ele mesmo, na Apple, já execrava a possibilidade de sua equipe copiar suas ideias e seu jeito de pensar, buscando sempre incentivar o pensamento original.

Sua queridinha, a Pixar, estava prestes a se tornar sócia da gigante Disney, mas ele não queria que a cultura da maior contaminasse a menor. O espírito criativo que tinha transformado a minúscula e cambaleante empresa, comprada de George Lucas, numa potência ganhadora de vários Oscar’s não poderia ser comprometido. Pelo contrário, deveria ser levado ao novo parceiro, a fim de resgatar a sua essência, exorcizando ideias e costumes antigos, mantendo assim a identidade de ambas, sem que uma copiasse a outra.

Jobs deu carta branca para Catmull e sua equipe. Tinham autoridade para fazer o que quisessem. E o resultado todos conhecem. O casamento das duas marcas as fez ainda mais fortes, sem a necessidade de misturá-las. Ser original é encontrar a sua essência e permitir que ela crie a sua arte a partir de uma visão única, combinando ideias e pessoas livremente.

Gosto da visão de Catmull sobre a forma como sua empresa lida com as pessoas. Ele acredita que é melhor ajudar sua equipe a encontrar e aperfeiçoar seus talentos do que simplesmente trazer pessoas “prontas e completas”. Acredito que boa parte de sua originalidade está aí, nessa capacidade de “ler” gente. Reciclando o que puder ser reciclado, e descartando o que não for possível.

É interessante aprender a liberar as pessoas, por mais valiosas que possam parecer naquele momento.

Existe uma crise de criatividade. Isso é um fato.

Até a leitura que fazemos sobre ela, muitas vezes está equivocada. Criatividade, para ser o que realmente deve ser, requer problemas reais. Daí, soluções inesperadas. O sucesso de empresas como Apple, Pixar, Amazon, Google, etc., tem muito a ver com a forma como solucionaram grandes problemas, aproveitando o timing, combinando fatores, elementos e pessoas, oferecendo soluções rápidas e únicas. E isso vale para o nosso dia a dia também.

Empresas inovadores parecem distantes, fazendo coisas impensáveis para mortais como nós, mas na realidade elas só têm sucesso porque seguem regras simples: dão liberdade para seus colaboradores desenvolverem suas próprias ideias. Imagine se na natureza tivesse um “chefe” dizendo o que cada elemento deveria fazer, seguindo regras rígidas de comportamento. Ainda seríamos um grande deserto, sem nada da belíssima diversidade que temos hoje.

A natureza é densamente cheia de possibilidades porque parece existir um tipo de “curiosidade” que permeia toda a sua estrutura. Parece que ela está o tempo todo experimentando coisas novas, mas, na verdade, está apenas recombinando ideias, fragmentos, átomos e moléculas, afim de estabelecer novas formas de equilíbrio.

Na natureza tudo pode acontecer. E não se engane, pode não parecer mas também fazemos parte dela, e essas mesmas regras servem para cada um de nós.

O problema é que após séculos de alfabetização e doutrinação escolar, conseguimos padronizar o pensamento humano, tornando a criação de ideias algo artificial, pautado em regras fixas. Não é tão natural para o ser humano moderno ter ideias próprias, livres e espontâneas. Nas escolas está tudo pronto, à espera da hora certa de ser ensinado. Em outras palavras, a instrução direcionada tornou as crianças menos curiosas e, assim, menos inclinadas a explorar o mundo, sempre dependentes de algum tipo de guia. Na fase adulta, continuamos esperando que alguém diga o quê, quando e como fazer.

Mas e se o verdadeiro problema for a própria escola?

Para Peter Gray, autor de vários livros sobre educação, o fato lamentável é que uma de nossas instituições mais queridas, por sua própria natureza, “falha com nossos filhos e com a nossa sociedade”, comenta. Numa cultura tomada por essa lógica, fica difícil exigir comportamento criativo e espontaneidade de jovens que vão se candidatar a vagas em empresas. Estamos tão acostumados a seguir regras e esperar o apito para agir, que não conseguimos desenvolver um espírito empreendedor em sua plenitude. Preferimos perguntar: o que o Steve faria?

É mais fácil.

O ecossistema mental das pessoas está árido. Séculos de padronização no ensino entulharam nossas mentes com processos rígidos de comportamento. Ao contrário de uma floresta, repleta de vida e possibilidades, em que tudo se aproveita, em que tudo pode acontecer, na qual a vida se reinventa o tempo todo, uma pobre lavoura de monocultura sofre com pragas por não saber lidar com elas. É preciso pesticidas e esforços imensos para que não morra. Quase tudo é artificial.

Peter Gray

Numa floresta há predadores naturais para cada ser. Tudo está em perfeito equilíbrio. Um ambiente de pura liberdade. Imagine uma mente como uma densa floresta tropical, onde tudo pode acontecer, e qualquer resultado serve para reconfigurar o próprio espaço de criação. Agora, imagine uma mente que só repete ações, copiando e colando, como uma lavoura de soja, por exemplo, que sofre para se manter viva, dependendo de produtos químicos para repelir predadores e da ação direta da mão do homem e de máquinas para “dar certo”.

Não é possível falar de criatividade sem mencionar o sistema de educação; sem mencionar a forma como desenvolvemos o ecossistema mental das pessoas. Se as mentes virgens infantis são invadidas, e nesse espaço são criadas monoculturas, baseadas em repetição e dependência, dificilmente criaremos gerações de pessoas criativas, dispostas a inovar. Os estudos de Peter Gray mostraram que a insatisfação com a escola se mostram cada vez mais evidentes. E que o aprendizado que depende de alguém para ensinar já não atende às necessidades das crianças e jovens. Quando descobrem por conta própria, com um mínimo de interferência, as crianças desenvolvem sua criatividade, encontrando respostas de forma muito mais rápida.

Ser original é impossível. Que bom! Isso nos obriga a encontrar nossas próprias respostas, combinando ideias e pessoas, aproveitando o momento, criando a nossa voz e a nossa identidade: isso amplia nosso ecossistema mental. Ou então, podemos esperar que alguém tome a iniciativa, mude o mundo, crie novas regras, e nos diga o que fazer, quando e como.

 

Mostre Mais

William Barter

William Barter é autodidata em muito do que faz hoje. Mas, já passou pelos cursos de jornalismo, cinema e pedagogia, em sua busca por novas perspectivas no estudo e aplicação da criatividade. Sua experiência em muitas áreas da publicidade, tendo trabalhado em empresas do Rio de Janeiro e Minas Gerais, preparou seu caminho para atuar hoje como consultor de marketing. É autor do livro Imaginação: a arma mais poderosa do universo, e também idealizador do projeto Crie & Ative, que oferece cursos e palestras sobre criatividade em escolas e empresas. William mora em Juiz de Fora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 + três =

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Fechar

Bloqueador de Anúncios Detectado

Considere dar uma força pra gente desabilitando seu bloqueador de anúncios