Blog do Henrique Szklo

Para criar é preciso trair a si mesmo

Se trair o próximo é inaceitável, trair a si mesmo é uma afronta a qualquer resquício de dignidade que um ser humano possa carregar. Quer dizer: nem sempre. Existe, de fato, uma ocasião específica em que, ao contrário, temos a obrigação e o dever de trair a nós mesmos: o momento da criação

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Trair é um gesto ordinário que merece todo o nosso desprezo. A traição é capaz de destruir qualquer tipo de relacionamento, empurrando para o precipício temas tão caros a todos nós como confiança, fraternidade, lealdade e amor: próprio e alheio. Não perdoo traidores, pois traição é um dos temas que julgo inegociáveis. Traiu, morreu pra mim.

Tem gente, ao contrário, que mantém sua indignação por longos períodos de tempo: Judas ainda sofre linchamento analógico e virtual por uma traição com mais de dois mil anos de idade. A minha reação pessoal é diferente: a total e definitiva desconexão emocional com o traidor, eliminando qualquer resquício de sentimento e empatia. A pessoa vira um nada, eliminado de minha mente e minha vida.

Só que não

Paradoxalmente, num artigo recente, elegi a tolerância como uma qualidade imprescindível no processo evolutivo de nossa espécie. Diante deste enfoque digno de uma alma nobre e superior, podemos relativizar o ato de traição, nos colocar no lugar de quem trai e compreender suas motivações e sentimentos.

Seu egoísmo infinito, total falta de empatia e desprezo pela dor alheia deve ter uma razão de ser. E tem mesmo. É o que eu chamo de Diretiva Primária, um comando inflexível e draconiano que nosso genoma imprimiu em nosso cérebro, nos impondo o paradigma “Sobreviva a qualquer custo”. Na verdade, todo animal recebe este mandamento de seu genoma.

Diante deste imperativo inexorável – e inconsciente – buscamos a todo momento maneiras de cumprir com nossa obrigação biológica, atacando ou nos defendendo de quem nos ameaça, em qualquer âmbito de nossa vida. E a traição não deixa de ser uma forma de manter-se vivo no sentido mais amplo. É um ardil, mas não deixa de ser legítimo. A culpa é do genoma que nos instrui a pensar “eu primeiro”. Porém, o processo civilizatório nos ensina que devemos ser mais empáticos e maleáveis, enfrentando nossos instintos, por vezes deletérios, com mais determinação. Que fique bem claro, isso explica a traição mas não inocenta o traidor. Afirmo constantemente que o pensar é livre, mas o agir é que define nosso caráter.

É preciso trair quem vemos no espelho

Se trair o próximo é inaceitável, trair a si mesmo é uma afronta a qualquer resquício de dignidade que um ser humano possa carregar. Quer dizer: nem sempre. Existe, de fato, uma ocasião específica em que, ao contrário, temos a obrigação e o dever de trair a nós mesmos: o momento da criação.

Todo processo criativo exige traição aos nossos princípios, nossas crenças e padrões. Não há como criar se não subvertermos nossa visão de mundo de alguma forma. O pensamento criativo, por motivos óbvios, não se dá requentando ideias por nós criadas ou conhecidas. Não podemos coadunar com nossa forma cotidiana de pensar. Edward DeBono, grande estudioso da criatividade, não a toa, cunhou a expressão “Pensamento Lateral”, que significa sair de seu modo de interpretar o mundo e buscar a construção de outra perspectiva, totalmente alheia ao nosso repertório pessoal. No meu léxico particular chamo de Subversão. É mudar a posição da câmera mental, perseguindo outra forma de ver o que já estamos familiarizados. Olhar para o que conhecemos e enxergar o que nunca vimos.

Todas as crenças que acumulamos ao longo da vida nos fazem a pessoa que somos. Ao confrontá-las e até mesmo negá-las (ação obrigatória na alta criatividade), estamos perpetrando uma traição ao nosso modo de vida, ao que acreditamos lá no fundo, às informações que sustentam emocionalmente nossa existência. É por isso que as ideias novas e diferentes nos causam tamanho desconforto e a sensação de que estão erradas, justamente em função da dor que causam.

Duas coisas que todo criativo precisa

Primeira, saber que é assim mesmo. Que pensamentos verdadeiramente originais geram desconforto, insegurança e a sensação de estarmos equivocados ao formulá-los. Você pode ser um criativo bissexto ou veterano: não existe alvará de segurança no processo de criação. Não existe certeza no processo criativo. Só esperança.

Segunda coisa, diante desta consciência, utilizarmos técnicas que nos permitam enfrentar o desafio de criar atenuando o sofrimento e “enganando” nosso cérebro. Mais uma vez, traindo. Subrepticiamente.

Nosso personal Judas

Porém, não devemos nos confundir neste processo. O fato de permitir que pensamentos abjetos percorram minhas sinapses não faz de mim um pária. Não precisamos, nem devemos, concordar com tudo o que pensamos. Nem todo pensamento é a expressão de nossa identidade, sendo muitos deles involuntários. A solução prática que encontrei para lidar com este desafio foi criar uma entidade fictícia em meu cérebro que seja responsável por pensar qualquer coisa sem julgamento, sem preocupações com o que é certo e o que é errado. Uma entidade amoral. Eu chamo a minha de Amaral.

Meu Amaral é aquele que me liberta da culpa e do sofrimento de pensar coisas que vão contra tudo o que acredito. Que me traia sem culpa ou justificativa nem me peça perdão. O Amaral é um traidor vocacional. Ele existe para trair e por isso mesmo eu devo deixar que ele cuide da subversão, do pecado e da infâmia de pensar livremente sem culpa e sem preocupações mundanas. Sou só um observador distante, mantendo minha autoimagem imaculada e minha dignidade intacta. Jamais irei para o inferno. Esse destino é do Amaral. Problema dele.

Mas não devemos hostiliza-lo. Ao contrário. É saudável que estimulemos seu comportamento desregrado e anárquico, sem esquecer de agradecê-lo por nos poupar da aflição autoinflingida e por colaborar tão decisivamente com nosso desempenho criativo. Quanto mais forte e destemido for seu Amaral, maior será seu potencial de gerar ideias verdadeiramente criativas. Minha sugestão? Deixe o homem trabalhar.

Só para manter a coerência e não trair a confiança do leitor, lanço mão de uma lógica despudoradamente extravagante: já que criar é um ato digno de nosso desprezo, são os desprezíveis os maiores responsáveis pela evolução da humanidade, os grandes transformadores do mundo. Confie em mim.

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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