Blog do Henrique Szklo

O papel fundamental dos idiotas na evolução da sociedade

O pensamento divergente é a base da evolução humana. O que complica é que o cidadão comum costuma ser muito agressivo com quem questiona suas crenças

O tema originalmente pensado para este artigo era sobre a importância do pensamento divergente, mas como já faz alguns anos que estamos vivendo um embate feroz entre hordas hostis de bolhas sociais, cada uma considerando a si mesma detentora da verdade absoluta, avalizada por Deus, conclui que a palavra “idiota” se encaixaria melhor na designação daqueles que pensam diferente de nós. Então, como nos contratos, as pessoas que não concordam com a gente doravante neste artigo serão denominadas IDIOTAS.

Negamos o que não conhecemos

O pensamento divergente é a base da evolução humana. O que complica é que o cidadão comum costuma ser muito agressivo com quem questiona suas crenças. Não faz uma avaliação isenta, não pesa prós e contras nem faz nenhum tipo de reflexão para confrontar qualquer desafio intelectual que tenha pela frente. Chilique talvez seja a palavra mais indicada para descrever este comportamento xucro. Mas a culpa não é necessariamente dele. Acionado por hormônios que causam desconforto físico, um sistema cerebral nos faz negar instantaneamente qualquer ideia, conceito ou pensamento que questione nossos padrões, nos dando a sensação de que só podem estar errados, já que causam aflição e insegurança. Quanto mais relevante o assunto para nós, maior o desconforto.

Deixa vida me levar uma ova!

Esse repúdio à quebra de padrões, por ser um processo inconsciente, nos faz reagir a ele com naturalidade, não enxergando motivos para negá-lo. Somente a consciência de como funcionamos, de como nosso cérebro lida com o mundo a nossa volta, nos capacita a driblar os hormônios do desconforto. Nos permite expandir nossa capacidade de refletir sobre qualquer assunto de forma desapaixonada, livre das pressões atávicas. Ao saber que o sentimento ruim é só um aviso, sem nenhum julgamento de valor, devemos ignorá-lo e seguir em frente.

Acionado por hormônios que causam desconforto físico, um sistema cerebral nos faz negar instantaneamente qualquer ideia, conceito ou pensamento que questione nossos padrões.

Mesmo as pessoas cientes deste mecanismo, todavia, evitam fazer um questionamento honesto de suas crenças porque se ao final concluírem que estavam erradas, o sentimento de frustração será tamanho, que elas preferirão fingir que refletiram de fato, mas na verdade só procuraram justificar suas verdades mirradas. Não é fácil mesmo questionar nossos padrões mais profundos. São eles que determinam quem somos. E mexer neste vespeiro é mesmo assustador. Não é pra qualquer um. Mudar de ideia sobre assuntos importantes é para os fortes.

Nada é mais subversivo do que a lógica

Como disse, a rejeição ao diferente é o sistema de defesa de nosso cérebro falando e não a nossa razão. A razão, ao contrário, nos deu mecanismos para fugir desta armadilha fisiológica, inescapável para os outros animais. O curioso é que temos todos a capacidade extraordinária de pensar, mas muito poucos a utilizam. Por medo, mas, em geral, por desconhecer sua força, importância ou até mesmo como acessá-la.

A razão nos permite utilizar a lógica como parâmetro para nossas decisões. Mas não a nossa tímida lógica pessoal nem a de alguém que pensa como nós, e, sim, uma lógica que ambicione argumentos despidos de parcialidades. E quando digo lógica, não significa que as respostas devam ser definitivas. É a possibilidade, a viabilidade que faz um pensamento ser digno de reflexão. E aceitar avaliar um pensamento potencialmente válido não significa estar abrindo mão do que acreditamos, mas que estamos abertos a pensar no assunto, sem instinto maternal. Aceitar a lógica como conselheira é fazer uma opção pela sabedoria e não pelo desejo de anuência automática do grupo social que pertencemos ou queremos pertencer.

A curiosidade é a maior inimiga da zona de conforto

Mesmo sentindo desconforto, devemos persistir pensando no assunto que nos incomoda. Você verá que, em poucos segundos a resistência se romperá e nossa mente se abrirá para novos pensamentos. Não quer dizer que devemos concordar necessariamente com qualquer novidade. Na verdade, não importa o resultado final do embate. O fundamental é darmos chance às novas informações para demonstrarem seu valor. Independentemente do resultado, o esforço será sempre gratificante.

Aceitar avaliar um pensamento potencialmente válido não significa estar abrindo mão do que acreditamos, mas que estamos abertos a pensar no assunto, sem instinto maternal.

O confronto de ideias nos ensina, nos faz entender melhor as coisas, nos faz evoluir. Fortalece nossas crenças, em função da geração de novos e mais profundos argumentos. Nos permite novas visões, ampliando nossos horizontes. Por outro lado, uma reflexão honesta pode também fortalecer e aprimorar nossas crenças originais ao invés de invalidá-las. Essa é a beleza do processo.

Não sermos questionados nos faz relapsos, prepotentes, despreparados para novos eventos. A curiosidade precisa falar mais alto do que o medo da quebra de padrões. O autoquestionamento é um exercício de humildade. Ter a mente aberta é a diferença primordial entre aqueles que fazem a raça humana evoluir e os desperdiçadores de oxigênio e recursos naturais.

O reconhecimento da ignorância nos faz sábios

O uso da lógica, entretanto, não nos capacita a encontrar respostas para tudo. Muitas vezes não temos conhecimento suficiente sobre o assunto para que possamos concluir qualquer coisa com um mínimo de acuidade. Neste caso, a lógica é aceitar o que os maiores especialistas na matéria dizem. Eles também não têm o poder da verdade absoluta, mas são os mais aptos a darem diagnósticos. Se estiverem errados, outros especialistas mais a frente apresentarão o que será considerada a nova verdade. E assim caminha a humanidade. Não tem outro jeito. Eu não vou para uma mesa de cirurgia contra a indicação de médicos respeitados só porque li um texto no whatsapp dizendo que eles estão conspirando contra mim.

Não sermos questionados nos faz relapsos, prepotentes, despreparados para novos eventos.

Não estou dizendo que não devemos ser enfáticos naquilo que acreditamos, mesmo nadando contra a corrente do senso comum. São incontáveis aqueles que se sacrificaram por ideias que questionavam o que a maioria pregava. Numa lista diminuta podemos destacar Sócrates, Copérnico, Freud e Jesus. Foram execrados, torturados, quando não, assassinados, apenas por pensarem diferente. E hoje são referências máximas em suas respectivas áreas de atuação. Então, se você não se incomoda em passar vergonha, acredite nos especialistas. Afinal, você não é Sócrates, Copérnico, Freud nem Jesus.

E quando não existe consenso entre especialistas? Nos assuntos sérios é raro acontecer, mas acontece. Neste caso devemos, primeiro, ver quem são estes “especialistas”. Em quem acreditar: num cientista não reconhecido internacionalmente mas que tem milhões de seguidores nas redes sociais ou no Neil deGrasse Tyson? No Jorge Jesus ou no meu tio que entende pra caramba de futebol? Num youtuber ou no Scorsese? Escolher aquilo que “eu acho” é muito confortável, mas também é de uma pobreza intelectual que até daria pena se não provocasse desprezo.

Ter razão é uma ilusão

Mas e se não houver consenso entre especialistas de alto nível? É o que chamamos de dilema, quando nenhuma resposta é boa o suficiente para tomarmos uma posição racional. É desconfortável, mas valioso. Os dilemas também são importantes impulsionadores do desenvolvimento de raciocínios lógicos, mesmo que não cheguemos a nenhuma conclusão. Neste caso, podemos deixar o assunto em aberto e responder ala Glória Pires “Não sou capaz de opinar”, ou lançar mão de outra capacidade invejável de nós, humanos: a intuição.

Nossas ideias não são nossas

Convenhamos que jamais fizemos uma reflexão honesta sobre quase nada em nossas vidas. Tudo ou quase tudo o que acreditamos compramos pronto, numa caixa fechada, sem questionamento nem espírito crítico. Alguém disse alguma coisa em um determinado momento e achamos que aquilo era ok para nós e a partir daí a verdade caiu como uma ficha gigante sobre nossas cabeças, sólida e inatacável. Trincheiras profundas são cavadas em nossa mente para que possamos defendê-la até a morte, se necessário for, sem nunca pararmos para pensar: “será que é isso mesmo que eu acredito?”.

Tudo ou quase tudo o que acreditamos compramos pronto, numa caixa fechada, sem questionamento nem espírito crítico.

Se quisermos, portanto, construir opiniões dignas de respeito, teremos de pensar bem nas coisas sem aquela de “esse é um pensamento de esquerda ou de direita, blá-blá-blá…”. A não ser que sejamos assumidamente bovinos, destros ou canhotos. Eu tenho um posicionamento político muito claro, mas acredito que cada fato merece uma atenção individual. Sou capaz de concordar com o gesto de alguém que abomino ou ir contra o pensamento de um ídolo. Não tenho compromisso com estar certo. Quero estar o mais certo possível dentro de uma lógica muito maior que a de correntes filosóficas, gostos e modas. É incômodo, mas apaixonante.

Salvem os idiotas!

Volto a dizer: o pensamento divergente é fundamental para nossa evolução. Inclusive o pensamento torto. Terraplanistas, criacionistas, negadores do Holocausto, racistas, misóginos, homofóbicos, descrentes do aquecimento global, saudosos de ditaduras, inimigos da vacina contra pólio, os desafetos dos direitos humanos, inimigos da ciência em geral e outros bichos extravagantes são a quintessência do pensamento simplório, tolo, ou seja: são idiotas em estado puro. Entretanto, como disse, não devem ser ignorados, ao contrário, devem ser usados como parceiros valorosos no exercício de argumentação e pensamento lógico. O trabalho ganha em utilidade quando as ideias afoitas destes indigentes intelectuais interferirem direta ou indiretamente em nossas vidas.

Provavelmente, por melhores que sejam nossos argumentos não iremos lograr êxito algum, mas com certeza esse treinamento será valioso para quando você se defrontar com outro idiota sinceramente preocupado em aprender e evoluir através da troca de ideias democráticas.

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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