Blog do Henrique Szklo

O estudo da criatividade não pode ser tratado de forma leviana

Quem quer se aprofundar no desenvolvimento de sua capacidade de criar precisa conhecer a Psicobiologia da Criatividade

Criatividade virou futebol: todo mundo entende. É quase uma epidemia de especialistas que tratam o assunto com superficialidade, ancorados em afirmações primárias, quando não, equivocadas. E, para minha tristeza, são reverenciado por legiões de pessoas que, inocentemente, acreditam em soluções rápidas e simples para problemas complexos e profundos.

Confesso, não sem um bocado de vergonha, que por questões comerciais, também tenho sido levado a trabalhar com esse tema que me é tão caro num padrão superficial, fast food, com dicas divertidas, porém inócuas, e abordagens com foco no entretenimento, deixando para segundo plano o que verdadeiramente pode promover mudanças. Sempre de olho no engajamento, tão necessário hoje em dia para a manutenção de uma atividade profissional como a minha. Mas resolvi, para o bem ou para o mal, dar um basta. Cansei.

Cansei do que no jargão dos consultores se chama de “fumaça colorida”. Aqueles eventos que são muito divertidos, estimulantes, motivadores, mas que no final das contas não acrescentam em nada na vida da pessoa. Parece que muitas empresas estão mais interessadas em entreter os funcionários do que verdadeiramente prepara-los para os desafios contemporâneos.

Cansei de alunos esperando fórmulas mágicas, se aborrecendo com o fato de que não se desenvolve a criatividade de um dia para o outro, que por terem uma expectativa pré-concebida se fecham diante de visões que desafiam o senso comum, apesar de apresentarem uma lógica muito difícil de ser contestada. Sem contar aqueles que ficam preocupados demais com o horário de encerramento das atividades, como se ter mais conteúdo fosse algo inconveniente.

Aviso importante: Se você se identifica com a descrição acima, sugiro que abandone este texto. Ele não é para você. Neste momento estou mais interessado em lidar com pessoas que têm um firme propósito de promover mudanças reais de mentalidade e que apreciem o saudável hábito do questionamento e da reflexão.

O primeiro passo deste meu movimento foi a alteração do nome de minha teoria sobre criatividade e comportamento. Aliás, este sempre foi um problema para mim. Até hoje não tinha sido bem-sucedido na escolha de uma nomenclatura que representasse fielmente minha abordagem sobre o assunto. A partir de agora, minha teoria carrega o nome de Psicobiologia da Criatividade. E vou explicar porquê.

Segundo o dicionário Houaiss, psicobiologia é: 1. estudo de funções e atividades psíquicas e comportamentais em suas relações com processos biológicos, e 2. conjunto dos aspectos ou processos biológicos considerados como sendo a base dos fenômenos psíquicos ou mentais.

Antes que algum psicólogo ou biólogo me acusem de fazer o mesmo que fazem os especialistas de criatividade que citei no início deste artigo, meu estudo é baseado eminentemente nestas duas disciplinas, mas de forma empírica, trabalhando com a lógica e não com conhecimento científico formal. Sou um autodidata que não se atreve a lançar mão de detalhes e definições conhecidos apenas por quem dedica anos de estudo e pesquisas. Respeito e reverencio a ciência e os cientistas. E quem se interessar em se aprofundar em meus estudos vai perceber isso de forma incontestável.

Por que Psicobiologia da Criatividade?

Acredito que todo o nosso funcionamento, incluindo ai comportamento, personalidade, perfil psicológico, desejos, memória, pensamentos, emoções, ou seja, tudo o que envolve a nossa vida, é resultado de processos fisiológicos complexos. A criatividade, ou, melhor dizendo, a capacidade de criar, é, portanto, igualmente o resultado destes mesmos processos. Dito isso, a parte biológica está justificada.

Com relação à psicologia, acredito que somos, eminentemente, a manifestação de nosso inconsciente e, portanto, não temos controle da maioria de nossos atos. Não temos acesso a ele, a não ser em casos específicos, conceito corroborado pelo papai Sigmund. O consciente é um mero coadjuvante no teatro de nossas vidas. Sem compreender a dinâmica entre essas duas forças, não se conseguirá entender a criatividade em sua amplitude e profundidade.

Comecei meus estudos com foco apenas em desvendar os processos criativos, mas não demorou muito para perceber que eles são apenas uma pequena peça de uma engrenagem muito maior: a nossa inadiável necessidade de sobrevivência.

Como cheguei aqui

Muito antes de iniciar formalmente meus estudos, sempre fui um explorador da mente humana, mas não por idealismo, confesso. Portador de um distúrbio psicológico crônico, sempre quis entender o que se passava em meu cérebro rebelde. Qual a razão, ou razões, que me fazem lutar diariamente contra sentimentos e pensamentos nocivos a mim mesmo. Sempre quis entender a lógica desse desconforto extremo para, a partir daí, tentar solucionar o problema ou, pelo menos, mitiga-lo.

Há uns 15 anos, iniciei um estudo da criatividade, também relacionado ao funcionamento do cérebro para entender os processos que se dão no desenvolvimento de novas ideias. Curiosamente, demorou um tempo para que eu percebesse que as duas linhas de pensamento, na verdade, eram uma só. A busca de uma forma de administrar minha depressão se uniu ao meu desejo de transformar meu conhecimento intuitivo sobre criatividade em algo formal e estruturado para que fosse passível de compartilhamento com outras pessoas.

Anos se passaram desde o início desta jornada e o que mais me encanta em tudo isso é que eu tenho certeza de que nunca saberei 1% do que se passa em nossa mente, mas sei que vou persegui-lo até morrer. Quem sabe eu consiga um dia chegar nos 0,2%. Minha teoria é orgânica e, como a natureza (nosso cérebro incluso, claro), está sempre em movimento. O meu curso do mês que vêm já será diferente do meu curso do mês passado. A Psicobiologia da Criatividade está sempre evoluindo. Sempre se aprimorando. Novos insights surgem com frequência e os pontos estão cada vez mais solidamente conectados.

Minha teoria é orgânica e, como a natureza (nosso cérebro incluso, claro), está sempre em movimento.

Quem me conhece sabe que gosto de usar o humor como ferramenta pedagógica, mas ficou muito claro para mim que muita gente confunde humor com falta de seriedade e que, por isso, desdenha de algumas (muitas) metáforas divertidas que crio com o intuito de facilitar a compreensão e fortalecer a memorização. Não vou abandonar essa minha característica, nem seria possível, mas estou fazendo alguns ajustes para dar uma cara mais formal para que minha teoria suscite a credibilidade que acredito que mereça.

Sinto, honestamente, que tanto minha teoria, como eu mesmo, atingimos maturidade suficiente para leva-la a outro patamar. Estava mais que na hora de entrar em contato com conteúdos científicos para defrontá-la com o contraditório ou, se tivesse sorte, corroborarem meu pensamento.

Não faço questão de estar certo. O que eu faço questão é de estar o mais certo possível. Posso dizer que minha mente é um espaço democrático, onde as ideias são confrontadas, sem preconceito, em busca de definições que àquele momento pareçam ser as mais coerentes e lógicas, independentemente de minha posição anterior. Não tenho medo de mudar. Tenho medo de não mudar.

Não tenho medo de mudar. Tenho medo de não mudar.

Parte desse meu novo movimento iniciou fazendo uma pós-graduação em Neuropsicologia, o que, de fato, tem sido extremamente útil para fazer conexões mais sofisticadas no meu processo de compreensão da mente humana. Até agora, pelo menos, não me deparei com nada que me fizesse rever alguma abordagem do ponto de vista estrutural. Ao contrário, além de fortalecer meus argumentos, várias lacunas estão sendo preenchidas e conceitos aprimorados.  

Voltar para a sala de aula como aluno quase aos 60 anos, mesmo que virtualmente, tem me feito muito bem. Como consequência direta dessa volta às aulas, espero, em muito breve, lançar meu nono livro, o terceiro sobre criatividade, que promete ser o mais importante trabalho da minha vida.


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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é pesquisador da criatividade e do comportamento humano utilizando uma abordagem neuropsicológica do assunto. Além disso é escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. É professor do MBI da UFSCar e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade), é palmeirense e não-negacionista.

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