Blog do Henrique Szklo

Não basta vestir a camisa da empresa. É preciso vestir o pijama também

Full time ou fool time?

Escrevi esta crônica há uns 20 anos para a finada Revista da Criação do Meio & Mensagem, publicação dedicada a publicitários da área de criação. Mas pelo que tenho observado, as coisas não mudaram nada de lá para cá

Não sei se você sabe, mas hoje em dia para dar certo em propaganda você tem de trabalhar muito, de sol a sol. De lua a lua e às vezes de eclipse a eclipse. Os padrões e os patrões atuais querem trabalhadores dedicados, de confiança, limpinhos, mas principalmente querem empregados que durmam no emprego. Sem essa de ir para casa no fim do dia e só voltar na manhã seguinte. Quem quer ser alguém na propaganda atual precisa se desligar dos desejos mundanos, abstrair-se de vontades efêmeras, abandonar conceitos medíocres e ultrapassados como “tempo livre” ou “vida pessoal”. O mundo mudou, gente. Acabou aquela história de boa preguiça. De dolce far niente. Em propaganda agora o lema é: “faça a fama, mas não perca tempo deitando na cama”.

Família só serve pra encher o saco

Família, amigos, casamento e filhos são apenas obstáculos a serem transpostos no estimulante caminho do sucesso publicitário. Eles só querem boicotar a sua ascensão profissional. São egoístas, não pensam em você, só neles, em suas vidinhas insignificantes e insossas. Possessivos e rancorosos, não dão a mínima para seus prêmios, zombam de seu anúncio genial e desprezam solenemente sua vitoriosa carreira. No fundo, morrem de inveja de você. Tão novo e tão bem-sucedido. Nem precisou estudar e ganha a maior grana. Se bobear eles até torcem para você se dar mal. Urubus atrás de carniça.

Só que se você perguntar, irão dizer que querem apenas sua companhia. Mas você sabe melhor do que ninguém que sua companhia não é grande coisa. Então o que eles querem afinal? Seu tempo não nasce em árvores para ficar desperdiçando com fúteis, desnecessários e improdutivos encontros familiares. O mais importante é estar sempre buscando o novo, o inusitado, o criativo, o premiável. A nossa carreira é o que importa. O resto é o resto. As oportunidades profissionais não aparecem todos os dias, família sim.

Um pai de verdade

Mas se você fizer mesmo muita questão de ter uma família, pense que o seu patrão é como um pai pra você: exigente, disciplinador e orientador moral. Mas apesar de dar algumas broncas de vez em quando (que são para o seu próprio bem), ele é sempre pontual no pagamento de sua mesada. Às vezes tudo o que você quer é ser parecido com ele, às vezes ele é o pior homem do mundo. Mas é sempre uma referência. E quando ele precisa te dar uns petelecos, saiba que dói muito mais nele do que em você.

Mãe só tem duas

Já a agência é sua mãe. Protetora, compreensiva, flexível. Deixa você fazer o que quiser desde que o que você quiser seja o que ela quiser É quem te alimenta e te conforta. Esquenta no frio e refresca no calor (com exceção das agências que não têm ar-condicionado).

Coisa de irmão

Os seus colegas de trabalho são como irmãos: competitivos, invejosos, venenosos. Vocês estão sempre brincando juntos, mas o que eles querem é ver a sua caveira e deduram tudo o que você fizer de errado para o pai.

Avós da razão

Já os fornecedores são seus avós. E como avós que se prezem, sua função é estragar os netos. Mimam você, fazem tudo o que você quer sem reclamar e muitas vezes assumem seus erros como se deles fossem. Só querem agradá-lo. Não aparecem sem um presentinho.

Filho de quem?

E, finalmente, os clientes são os filhos: crianças mimadas que não podem ser contrariadas e querem sempre a nossa atenção. Geralmente eles são muito rebeldes. Não fazem nada do que a gente manda. Mas aí basta lançar mão da psicologia infantil: quando você quiser alguma coisa deles, basta pedir o contrário. A única e lamentável diferença com filhos de verdade é que não podemos gritar e muito menos bater neles. Paciência. Na verdade é preciso ser muito criativo nos castigos aplicados senão traumatiza as crianças e elas tiram a conta da agência.

Mas a grande vantagem da família cover para uma verdadeira é a hora que você pode trocá-la a hora que quiser. Sem crise.

Pessoas não são papel para se reciclarem

As principais reclamações dos defensores da preguiça, dos patronos do ócio, dos advogados da indolência, dos gurus da vagabundagem é que dedicar-se exclusivamente ao trabalho não é produtivo, que você precisa se reciclar periodicamente para criar coisas novas, que sem relaxar e gozar a vida você não consegue descobrir novos caminhos. Que o lazer é parte fundamental da vida. Que só trabalhar incansavelmente é limitante, reduz os horizontes, embota a mente e a afasta do novo. Que a falta de novas experiências deixa a vida vazia e o trabalho excessivo associado à falta de lazer gera stress e fadiga.

É, minha gente, a criatividade das pessoas não tem limites. Dizem qualquer coisa só para não ter de trabalhar, esses parasitas. Como assim, vida vazia? Só se for a deles, porque a minha esta cheia de campanhas, filmagens, reuniões, brainstormings, off lines. Quer lazer? Ora, existe atividade mais prazerosa do que criar uma campanha? Está com estresse, fadiga? Relaxe navegando na internet, visitando sites que tratem de assuntos de seu interesse: propaganda, por exemplo. Quer ler um livro? Leia anuários. Revista? Tem a Arquive. Quer ouvir um bom CD? Aposto que seu RTV tem uma porção de repertórios de produtoras de som. Ah, quer assistir um filminho? Então pegue o rolo do último Festival de Cannes.

Viu? Não há motivos para tanto estardalhaço, tanta reclamação. A propaganda se basta. Não precisa de mais nada. É um mundo a parte. Um mundo maravilhoso, sem política, sem doenças contagiosas, sem corrupção, sem pobreza, sem tristeza, terremoto, furacão, sem atentados a bomba. Propaganda é só alegria e diversão. 24 horas por dia. Literalmente.

Porém, devo admitir que há uma coisa que os inimigos da dedicação dizem que faz um certo sentido: quem não consegue fazer o que tem de ser feito no horário normal ou é incompetente ou tem trabalho demais. Verdade. Afinal de contas, 18 horas por dia, 7 dias por semana é mais do que suficiente par a resolver tudo.

Dias inúteis

Sábado e domingo já viraram dias úteis. Com a vantagem que dá para se trabalhar muito melhor sem aquela agitação da semana, sem telefone tocando, sem nada para nos distrair.

Na verdade, o fim de semana é a melhor época para se trabalhar. Devia virar lei. Ficar fazendo o quê? Indo a parque lotado de gente, pegando fila de duas horas em restaurante, fila no cinema. Pra que tudo isso se é melhor pedir uma pizza na agência? Não, tem gente que prefere ficar em casa assistindo Gugu, Sérgio Mallandro e Faustão. E quando começa a ouvir aquelas musiquinha do Fantástico dá a maior deprê. Então, não é muito melhor estar na agência fazendo o que gosta?

Economia é a base de tudo

Trabalhando incansavelmente você só tem a ganhar. Primeiro, não pega trânsito para voltar pra casa, já que sai sempre tarde da agência. Segundo, não precisa gastar dinheiro comprando um super apartamento, já que nunca você vai estar lá mesmo. Terceiro, quanto mais tempo você fica na agência, mais água, luz e telefone você economiza. Quarto, quanto menos tempo você estiver na rua, menores são as chances de se gastar dinheiro com bobagens. O meu sonho dourado é um dia as agências terem dormitórios e banheiro com chuveiros. Aí a gente vai poder morar nelas, não seria demais?

Calado, era um poeta

Mário Quintana uma vez escreveu: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar não teria inventado a roda”. E se o Mário Quintana tivesse sido publicitário, teria morrido de fome.

Amoral da história

Quem acha que vida pessoal é importante que vá escrever biografias.


Você encontra esta e outras crônicas de humor sobre a publicidade no meu livro “Só porque criou o mundo pensa que é Deus, 2a. tentativa”

GOSTOU? ENTÃO APROVEITA E ASSINA NOSSA NEWSLETTER

Assim você fica por dentro de tudo o que acontece em nossa escola

Política de Privacidade

Mostre Mais

Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é pesquisador da criatividade e do comportamento humano utilizando uma abordagem neuropsicológica do assunto. Além disso é escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. É professor do MBI da UFSCar e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade), é palmeirense e não-negacionista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao topo