Mentes Criativas

História de Glauber Rocha que merece um filme

O diretor do Cinema Novo teve uma vida em que a realizade e a ficção se misturavam e se confundiam

Nelson Motta, em seu livro “A Primavera do Dragão”, biografia do cineasta brasileiro Glauber Rocha, ele conta uma passagem que, de tão cinematográfica, parece até ficção. Muitos amigos do Glauber, inclusive, repudiam a história dizendo que nunca souberam dela. Porém, Nelson Motta afirma que o Glauber em pessoa contou o causo pra ele e que, depois, a mãe do cineasta, Lucinha Rocha, confirmou. Bem, independentemente da mente criativa e irônica do protagonista, vale a pena contar a versão glauberiana.

E como estou falando de um dos mais importantes cineastas brasileiros, co-fundador do aclamado Cinema Novo, vou contar o supostamente ocorrido fato em forma de roteiro.

 

GLAUBER E O LADRÃO
de Glauber Rocha

 

TELA PRETA:
Noite chuvosa e quente, Casa de Glauber Rocha, que conversa com dois amigos na sala.
CRÉDITOS INICIAIS:
TÍTULO: “Glauber e o Ladrão”

CORTA PARA:

INT. CASA (SALA) – NOITE
Conversa entre GLAUBER e os amigos continua, mas não ouvimos.
LUCINHA, mãe de Glauber, atravessa a sala silenciosamente e abre a porta de seu quarto. Acende a luz e grita:

LUCINHA
Glauber, meu filho, corre, é um ladrão

Um negro alto e forte é surpreendido mexendo no armário. A janela está aberta, mostramdo como é que ele entrou.

CORTA PARA:

INT. CASA (PORTA DO QUARTO) – NOITE

GLAUBER e os amigos correm para amparar LUCINHA.

O LADRÃO, assustado, pega a faca que leva na cintura.

GLAUBER, com gestos lentos, põe o braço nos ombros da mãe e tenta tranquiliza-la. Ele fala alto para que o LADRÃO também ouça.

GLAUBER
Calma, mãe, este homem não é um ladrão:
ele está com fome.

LADRÃO
(ameaçador)
Não estou com fome porra nenhuma!
Eu sou é ladrão!

Ele aponta a faca.

LADRÃO (CONT.)
E olhe que estou armado

GLAUBER está aparentemente tranquilo.

GLAUBER
Nós não temos medo de você, porque logo se
vê que você não é um assassino, um bandido.
Você está é com fome, meu filho.

LADRÃO
Porra, eu não estou com fome! Eu já disse
que sou ladrão. eu segui sua mãe, sei que
ela traz dinheiro para pensão e vim aqui para
roubar.

O LADRÃO está nervoso e confuso. A faca treme em suas mãos. LUCINHA chora de cabeça baixa, rezando. Os amigos estão paralizados

GLAUBER
(paternal)
Ô, meu filho, é claro que você não é um
criminoso. Você é um cara jovem, bonito,
cheio de vida, as mulheres devem gostar
muito de você. Vamos resolver logo isso,
vem cá.

GLAUBER começa a caminhar em direção à cozinha com a mãe e os amigos, sinalizando para o LADRÃO os seguir. Assustado, confuso e olhando para os lados, ele coloca a faca na cintura e decide aceitar.

CORTA PARA:

INT. CASA (COZINHA) – NOITE

GLAUBER abre a geladeira e começa a colocar tudo na mesa da cozinha. Silêncio total.

GLAUBER
(sorrindo)
Olha aí, meu filho. Está tudo resolvido.
Pode comer o que quiser.

O LADRÃO bate a mão na mesa.

LADRÃO
(raivoso)
Porra! Eu já disse que não estou com fome.
Eu já comi antes de vir aqui. Eu sou ladrão,
já estive preso, fugi, fui preso de novo
e fugi de novo, e minha vida é essa mesmo.

Ele se acalma e abaixa o tom de voz.

LADRÃO (CONT.)
Mas nunca matei ninguém.

GLAUBER coloca a mão em seu ombro, dando tapinhas amigáveis.

GLAUBER
Deixe de bobagem, meu filho. Eu sei
que você já passou fome e que às
vezes ainda passa, mas aqui você está
entre amigos.

O LADRÃO vencido, senta na cadeira.

GLAUBER
Olha, se quiser você come agora. Senão,
pode levar pra casa, para a sua família.

O LADRÃO não toca na comida, se levanta e silenciosamente caminha em direção à porta. Neste momento um clarão invade a casa.

Ruído: trovão

GLAUBER
É melhor você não sair agora.
Está chovendo muito.

Outro trovão.

Ruído: trovão

O LADRÃO abre a porta e sai caminhando lentamente, não se importando com a chuva, até que desaparece na noite escura.

CORTA PARA O PRETO:

CRÉDITOS FINAIS

 

Fonte
Nelson Motta (A Primavera do Dragão)
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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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