Ensinamentos de São Magaiver

O trauma da destruição dos Castelos de Lego em nosso cérebro

Terceira é última parte do artigo sobre a construção de nosso conjunto de crenças

Leia a primeira parte deste artigo – Leia a segunda parte

No Castelo de Legos, imagine que você tem uma torre que representa a sua crença em relação a uma pessoa querida, por exemplo. Se um dia você descobre que ela, na verdade, não era quem dizia ser, a decepção é grande, não? Isso acontece porque a estrutura de legos dedicada à sua opinião sobre aquela pessoa específica demonstrou ser inadequada. Você terá de desmontá-la e montá-la de novo utilizando as novas informações coletadas. Mas deu muito trabalho você construir a primeira estrutura. Foram anos e não meia hora. E o cérebro vai detestar esta tarefa. Ele detesta ter de desmontar um pedaço do castelo, mínimo que seja, para montar outro.

Não tem nada a ver com moral, ética, “certo” e “errado”. Tem a ver com economia de energia. E dói por isso mesmo. As peças de lego, ao serem conectadas no castelo estão em carne viva. Grudam umas às outras. Quando precisam ser separadas é como arrancar um pedaço de pele. E é por isso que nos relacionamentos demora um pouco para parar de doer, para esquecer a pessoa que um dia amamos, mas que nos decepcionou. É o tempo que demora para desconstruir a torre de legos e reposicionar as peças correspondentes a “meu amor” em nosso castelo. Mas depois que a estrutura foi desmontada, você nem entende porque um dia gostou daquela pessoa, pois a rede neural que dava subsídios aquele sentimento não existe mais. O mesmo acontece quando mudamos de cidade ou país, quando mudamos de emprego ou crenças que temos por alguma razão são invalidadas.

Mas o desconforto da desconexão não é sempre o mesmo, claro. Existem assuntos que doem mais que outros. E a medida utilizada pelo cérebro é Tempo x Relevância, ou seja, tudo o que estiver há muito tempo no Castelo e for importante vai doer mais que o inverso.

Outra informação importante: toda vez que o cérebro tiver que retirar peças do Castelo de Legos, mesmo que seja por um bom motivo, haverá desconforto. Mas quando uma peça é adicionada sem a necessidade de troca, o resultado é conforto e, dependendo da relevância, prazer. Concluindo, para o cérebro é assim: NO REPLACEMENT. YES ADDITION.

Castelo de Legos e as torres gêmeas

Acredito que uma boa forma de explicar a quebra de padrões é lembrar mais uma vez de 11 de setembro de 2001. A queda daquelas imensas estruturas de concreto e ferro significaram muito mais do que uma simples demolição de um par de prédios. O World Trade Center representava a pujança e o poder econômico estadunidense. A potência mundial em toda a sua plenitude.

Demorou anos para ser construído a um custo de milhões e milhões de dólares. É como em nossa cabeça. Um conceito importante que vai sendo construído aos poucos com peças de lego até atingir uma estatura monumental e significar alguma coisa muito importante para nós. Ao serem atingidas e destruídas, as torres causam pânico, dor e um sentimento de impotência.

Ainda na metáfora do Castelo de Legos, o processo de reconstrução das torres é bem parecido com o real. Em primeiro lugar, o choque. Em segundo a necessidade de limpar o terreno dos escombros. E, em terceiro, a reconstrução. E como em nossas cabeças, todos esses processos são demorados e dolorosos. Tanto que demoraram uns dez anos para começar a construção das novas torres que tomaram o lugar das antigas. A quebra de padrões para o cérebro é coisa de terroristas.

Quebra de padrão x trauma

Na verdade, o trauma nada mais é do que uma quebra de padrão violenta. Uma crença arraigada que é invalidada de forma brusca e aparentemente irremediável. As quebras de padrão mais comuns em nossas vidas são de proporções menores e mais ou menos administráveis. O que não quer dizer, em absoluto, que não possam provocar grande desconforto e até mesmo dores desestabilizadoras.

Parêntesis

Cada vez que fico sabendo que uma pessoa morreu penso que um universo inteiro morreu com ela. Um Castelo de Legos construído ao longo de tantos anos que de repente vira pó. Me dá uma sensação profunda de perda, mesmo que eu não conheça a pessoa nem tenha nenhum tipo de afinidade ou empatia. Principalmente se for uma morte meio besta. Me soa como um desperdício de energia. Um conhecimento único que se vai e que portanto foi inútil acumulá-lo por tantos anos. Mas nem tudo está perdido. De repente me lembro que acredito em Inconsciente Coletivo. Por isso sei que o aprendizado daquele indivíduo não foi em vão. De alguma maneira seu repertório foi compartilhado com toda a nossa espécie. Mas isso é apenas uma crença. Um padrão que eu construí. Com peças de lego.

Como gelatina

Imagine que o cérebro é feito de gelatina. Neste contexto, o Castelo de Legos funciona como uma estrutura interna que lhe dá sustentação. Como se fosse um esqueleto. Para o ser humano, os padrões são nossa sustentação emocional. Nos apoiamos na segurança de nossas crenças. Mas como tudo na Natureza, é preciso equilíbrio. Um Castelo de Legos grande demais dá muita segurança, mas ocupa um espaço precioso, não deixando nenhuma área para novas informações, ou seja, imobiliza o cérebro a ponto de dificultar a adaptação a outras realidades. Já um Castelo de Legos pequeno demais provoca uma grande insegurança pois se mostra incapaz de sustentar a gelatina, deixando-a mole e incontrolável a cada balançada. Devemos, então, tomarmos muito cuidado em manter nosso Castelo de Legos em um tamanho que ao mesmo tempo nos proporcione segurança e equilíbrio emocional, mas que também nos ofereça um bom espaço para que possamos pensar em novas coisas, desenvolver novos raciocínio e padrões. Criar, enfim.

 

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São Magaiver

Santo protetor da Criatividade e da capacidade de nos adaptarmos à novas situações de maneiras inusitadas. Ele é o mestre das soluções de problemas, um verdadeiro modelo de comportamento no que diz respeito à utilização do que se tem a mão para resolver problemas dos mais diferentes tipos.

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