Blog do Henrique Szklo

E se não existisse livre-arbítrio, o que você faria?

Somos autômatos, controlados por um sistema nervoso implacável que nos permite apenas pensar, dizer e fazer as coisas para as quais fomos programados

“Possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante”. Esta é a definição de livre-arbítrio segundo o dicionário Houaiss. Curiosamente, ele não coloca o verbete na categoria de fantasia, quimera ou ilusão. Mas deveria.

A verdade é que somos autômatos, controlados por um sistema nervoso implacável que nos permite apenas pensar, dizer e fazer as coisas para as quais fomos programados. A não ser em casos extremos de risco à nossa sobrevivência.

É, de fato, desagradável receber essa notícia assim, de supetão, eu sei, mas esse tipo de informação precisa ser passada assim mesmo: como um band-aid tirado de uma zona peluda na base do “o quanto antes, melhor”.

Vamos aos fatos. Somos quase que totalmente controlados por nosso inconsciente, numa base de 95% contra 5% do consciente.

Desculpe a franqueza, mas o inconsciente é burro. Não questiona nem avalia nada, apenas acumula informações e as utiliza como cláusulas pétreas de nossa constituição pessoal. Se aprendemos que azul é para meninos e rosa para meninas, o inconsciente nos fará rejeitar um quarto todo cor de rosa para um bebê masculino. Um desconforto que, se você analisar friamente, não faz sentido já que as cores relacionadas a gênero são meras convenções. Mas para o inconsciente não existe “analisar friamente”. Só existe o que ele aprendeu. O resto está errado.

Depois que o inconsciente determina um padrão qualquer, como andar, aprender uma língua, dirigir ou acreditar que a Terra é plana, ele nos fará sofrer se tentarmos negar ou contrariar este padrão. E não tem nada a ver com julgamento de valor. Ele não reflete, não pesa, não sofre nenhum tipo de dilema. Para o inconsciente certo é o que está em nosso conjunto de padrões e errado é o que não está. E ponto final. É tudo questão de padrões, contextos e circunstâncias.

O inconsciente trabalha com lógica computacional. Só reproduz aquilo que foi programado para fazer. Sem mais nem menos. Sem “melhoras” ou “correções”. Sem “humildade” ou “vaidade”. Aprendemos a utilizar garfo e faca, e, quando for o momento, o faremos exatamente da maneira como aprendemos. Qualquer tentativa de mudança será acompanhada de desconforto emocional, dúvida, hesitação e, no caso dos talheres, um garfo enfiado na testa. Isso serve para tudo o que aprendemos. Por exemplo, tente tomar banho com a mão contrária de sua habilidade natural. Vai ser um banho trabalhoso, mentalmente desgastante e, provavelmente, incompleto. E para deixar a coisa mais difícil, praticamente não temos acesso ao inconsciente, nem ao que ele quer ou pensa.

Por outro lado, o consciente é o responsável por pensar, refletir e ponderar. Pena que ele não mande nada. Só dá sugestões. É uma espécie de Rainha da Inglaterra, que serve apenas para controlar nossos movimentos voluntários. Vou andar até ali, vou dizer isso, vou cortar a unha, vou pedir um filé a parmegiana, etc. Aparentemente, exercitando o livre-arbítrio, não é mesmo? Porém, tanto estes movimentos quanto o conteúdo das reflexões, como a lógica, a visão de realidade e de mundo também se originam do inconsciente. Por mais originais que nos pareçam alguns pensamentos, de alguma maneira veio tudo da mesma fonte: o inconsciente. Por exemplo: você pode refletir honestamente sobre a importância do futebol na sociedade. Mas se você não gosta de futebol, portanto não entende o sentimento de um torcedor, vai analisar de um jeito. E, se gosta, de outro. Não é sua culpa nem de ninguém. A propósito, imparcialidade também não existe.

Enxergamos o mundo através de nosso conjunto de padrões. Não existe realidade na acepção da palavra. Cada um tem a sua, porque o que há na verdade são percepções. Eu percebo o mundo diferente de você e de todas as outras pessoas. Um mesmo fenômeno é explicado de formas divergentes por pessoas presentes no mesmo espaço/tempo. Desenhe um círculo numa folha de papel e mostre para pessoas diferentes. Um jogador de futebol provavelmente vai dizer que é uma bola. Um astrônomo dirá que é um planeta. Um farmacêutico enxergará um comprimido. Um chef verá um prato. E por aí vai.

Mas como ele manifesta este controle? Por meio de hormônios que nos fazem sentir conforto ou desconforto. Se estamos dentro dos padrões, praticando o senso comum e louvando o clichê, recebemos uma dose do hormônio do prazer. Se, por outro lado, ousamos pensar ou fazer o que nunca pensamos ou fizemos, enfrentando esse poderoso sistema de defesa, o desconforto é garantido. Eu os chamo de Hormônios Disciplinares, pois são os responsáveis por nos manter dentro das leis do inconsciente. Se por um lado o que nos é familiar nos conforta, o novo, o inédito assusta e causa rejeição. E como eu disse, não é julgamento de valor, apenas uma reação de nosso sistema de padrões tentando se proteger.

Pode ter certeza de que se você está gostando deste texto é porque de alguma forma ele confirma sua percepção sobre o assunto. Se não está gostando é porque bate de frente com suas crenças. Ou porque é ruim mesmo…

A dificuldade em ser criativo está justamente aí. Como criar é gerar uma ideia/pensamento original, que ninguém nunca teve, a reação imediata e violenta do inconsciente é mandar uma boa dose de hormônio da dor pra gente ficar esperto e desistir de uma vez. E por uma outra determinação do inconsciente, temos a convicção de que, se dói, é porque está errado. Mas toda ideia nova dói. Pelo menos num primeiro momento. Portanto, se nossa intenção for sermos verdadeiramente criativos temos obrigatoriamente que investir nas ideias que nos incomodam. Ideias que nos deixam confortáveis pode ter certeza de que não são originais.

E não se preocupe: o inconsciente reclama, mas com muito custo, aceita uma eventual mudança de padrões. Quantas vezes você não ouviu uma música e não gostou, mas depois de ouvir algumas vezes passou a gostar, até adorar?

A natureza é binária por definição. É um sistema autorregulatório que trabalha na busca de equilíbrio entre forças contrárias. Os animais irracionais, como não refletem, são 100% comandados por seu inconsciente. Para ele, não existe meio termo. É certo ou errado. É grande ou pequeno. É feio ou bonito. É limpo ou sujo.

Nós temos o consciente, que nos permite questionar esse binarismo, incorporando nuances e análises para que possamos tomar decisões aparentemente melhores. Nosso consciente é um poder subutilizado pela humanidade pois a maioria das pessoas não o utiliza em seu benefício, se deixando por essa força invisível sem nem perceber.

A lógica maniqueísta pertence ao mundo dos animais irracionais. Os extremistas em qualquer atividade – religiosos, políticos, esportivos – comprovam esta afirmação. Geralmente são agressivos e pouco afeitos ao diálogo e muito menos à reflexão honesta sobre suas crenças.

Isso acontece porque cada grupo social constrói o seu conjunto de “verdades”, crenças, dogmas, muitas vezes de forma espontânea. Aparte as leis ou qualquer outro instrumento coercitivo, todo grupo social realiza acordos velados e invisíveis sobre como aquele coletivo funciona, pensa, acredita, age, e como cada membro deve se comportar.

Nosso código genético nos obriga a viver em grupo, por isso participamos de tantos, e uma das prerrogativas de um grupo unido e sólido é a convicção de estar absolutamente certo em suas posições e que aquele que diverge é uma séria ameaça, pois pode nos convencer de que estamos errados e isso seria o fim de nosso grupo. Por exemplo, quando numa parada gay, Jesus Cristo foi representado por uma transexual, os religiosos (verdadeiros e falsos) foram à loucura. Mas quem garante que Jesus não era transexual, gay, preto ou anão? E se não fosse, e daí, também? Quem garante que ele sequer existiu? Mas, como mexeu com um grupo imenso de pessoas, que, como eu disse, evita questionar suas crenças, o resultado é sempre o mesmo: repúdio, no mínimo. Por isso a violência é um dos efeitos colaterais deste comportamento. Faz parte de nossa natureza. Tudo acontecendo num nível inconsciente .

É isso, somos um boneco que acredita que tem vida própria, vivendo sentados no colo de nosso inconsciente. Nós mexemos a boca, mas quem fala é o ventríloquo. Então, diante de todas essas informações, você acha mesmo que existe livre-arbítrio? E seu inconsciente, o que acha?

GOSTOU? ENTÃO APROVEITA E ASSINA NOSSA NEWSLETTER

Assim você fica por dentro de tudo o que acontece em nossa escola

Política de Privacidade

Mostre Mais

Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é pesquisador da criatividade e do comportamento humano utilizando uma abordagem neuropsicológica do assunto. Além disso é escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. É professor do MBI da UFSCar e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade), é palmeirense e não-negacionista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao topo