Blog do Henrique Szklo

Disruptofobia, o medo inconsciente de ser criativo

Não percebemos que estamos de fato sendo manipulados por um mecanismo de defesa de nossa estrutura de padrões adquiridos

Criar é a coisa mais fácil do mundo. Quem conhece o caminho, sabe que o ato de criar em si é, de fato, muito simples. O que gera bloqueio são questões psicológicas inerentes ao funcionamento de nosso cérebro e que nada têm a ver com o fato de sermos ou não criativos. Todo mundo é criativo. Basta conhecer a estrutura do pensamento criativo e seguir alguns passos específicos. A dificuldade real, entretanto, está na construção de um critério sobre o que são ideias potencialmente boas ou ruins. Mas isso a gente só desenvolve ao longo de anos de trabalho e experiência, como em qualquer outra habilidade.

É preciso, em primeiro lugar, desmistificar o conceito de criatividade. Não dá pra enfrentar algo que julgamos ser muito maior do que nós. Algo que esteja fora de nosso alcance. Como disse, a capacidade de criar não é uma coisa extraordinária reservada a um seleto grupo de indivíduos ungidos por Deus. É apenas mais uma entre tantas habilidades humanas originadas da necessidade de sobrevivência. Um processo mental baseado em uma determinada estrutura lógica. Se colocarmos a criatividade em seu devido lugar, estaremos mais próximos de produzir ideias criativas. Não é para perder o respeito, apenas estarmos conscientes de que o ato de criar não é um bicho de sete cabeças. É de uma só: a nossa. Da mesma forma como aprendemos a ler, escrever, tocar piano, construir um prédio, operar um coração, podemos aprender a criar.

Você nem imagina como é criativo

Nosso cérebro é especialista em imaginação. Tanto que muitas vezes somos capazes de imaginar monstros e fantasmas, cobras e lagartos dos mais variados tipos, simplesmente para justificar nossa aparente falta de criatividade. Vemos obstáculos que não existem, mas que são apenas fruto de nossas questões psicológicas. Preferimos utilizar nossa criatividade para proiduzir desculpas para não sermos criativos. A capacidade de imaginar, portanto, não é o problema. Precisamos aprender, isso sim, a administrar nosso cérebro, e sua imaginação fértil, pra que ele não se deixe levar por pensamentos bloqueadores. No fundo, o próprio bloqueio criativo, suas origens e causas, ironicamente, é fruto de nossa imaginação em limites.

A soma de todos os medos

Basicamente, a dificuldade em criar está baseada em alguns medos que sentimos. Medos que muitas vezes são imperceptíveis ao olho humano, já que se desenvolvem em nosso inconsciente. É o que eu chamo de Disruptofobia. Temos três tipos de medo que colaboram com o bloqueio criativo:

Medo Social – É o medo de sermos julgados, sermos taxados de burros, ineptos, de não-criativos ou fazermos papel de idiota diante dos outros.

Medo Narcisista – É o medo de estarmos errados. Não para os outros, mas para nós mesmos. Medo de não sermos o que gostaríamos de ser, de não correspondermos às nossas próprias expectativas. Medo de manchar nossa autoimagem.

Medo Original – Medo do novo, do escuro, do não-conhecido. É o medo que surge como reação natural em todos os animais, apreensivos diante do desconhecido. O medo não passa de uma ferramenta de sobrevivência. E quando criamos, nos vemos diante do mesmo fenômeno, adaptado, claro, a uma realidade criada por um cérebro extremamente desenvolvido. Ao utilizarmos nossa criatividade estamos lidando literalmente com componentes originais, nunca vistos ou pensados. Buscamos o novo, tateamos no escuro. É de se esperar que tenhamos mesmo alguma dificuldade em romper com este bloqueio poderoso criado pela natureza. Não pense por um momento que estamos livres dos instintos e impulsos naturais dos animais só porque evoluímos.

O mestre dos disfarces

Como disse anteriormente, a Disrtuptofobia é um medo que se traveste de outros sentimentos, geralmente inconscientes. Não percebemos que estamos de fato sendo manipulados por um mecanismo de defesa de nossa estrutura de padrões adquiridos. Não percebemos que estamos sendo vítimas de um processo cerebral que nos desestimula a criar de forma vigorosa e permanente. Outro sentimento acaba levando a culpa, injustamente.

Preguiça, sono, procrastinação, invalidar a importância do trabalho em questão, esquecimento e autocrítica excessiva são apenas alguns exemplos do que o inconsciente é capaz de fazer para nos impedir de criar, de nos desafiar, de sairmos da zona de conforto.

Costumamos também exagerar o valor daquilo que nos desviou do caminho. “Esta série que eu maratonei é muito boa! Imprescidível para a construção de meu arcabouço cultural. Valeu a pena eu reservar um tempo para assisti-la”. É claro que é importante estarmos sempre enriquecendo nosso conhecimento, buscarmos entretenimento e darmos alguma pausa em trabalhos extenuantes. Só precisamos ter cuidado de não usar essa necessidade como desculpa para deixar de produzir algo criativo.

Além da imaginação

Nossa imaginação não tem limites. Essa capacidade de criar desculpas para não nos desafiar comprova de uma vez por todas que a criatividade está em todos nós. É preciso apenas aprender a direcioná-la para as coisas que interessam.

A batalha do inconsciente com o consciente é injusta

O importante é dizer que a Disruptofobia é normal. Não é um defeito. Não é uma deficiência ou limitação. É um sistema de proteção que nosso cérebro usa para nos manter vivos. Nosso conjunto padrões – conhecimento, crenças, dogmas, “verdades” pessoais – são  fundamentais para tentar garantir nossa segurança, conforto. Precisamos apenas aprender a lidar com esse sistema. Reconhecer as pistas que o inconsciente deixa. E tomar a dianteira do processo.

Temos de aprender a enfrentar a pressão do inconsciente e contra-atacar . Dar a ele um pouco de seu próprio veneno, usando seus mesmos truques e ardis. Precisamos enganá-lo. Não deixar que ele perceba nossa real intenção. Para isso existem inúmeras técnicas de desbloqueio criativo que criam estados mentais onde o inconsciente é pego desprevenido, evitando assim que ele acione seus mecanismos de defesa. Além disso é preciso aprender a fazer o que eu chamo de Gestão do Pensamento, um conjunto de ações capazes de administrar seus sentimentos a favor de nossos desejos conscientes. O de criar, por exemplo.

Uma notícia má e uma boa

Todo mundo sofre de Disruptofobia, de um jeito ou de outro. Do maior gênio criativo até o indivíduo com extrema dificuldade de criar. Na verdade, tudo depende do nível de criatividade que você deseja atingir com cada trabalho. Quanto maior a ambição, maior a Disruptofobia. A melhor maneira de enfrentar a Disruptofobia, como em todas as fobias, e a enfrentando de frente. Respirando fundo e olhando nos olhos dela. E como fazer isso? Iniciando um processo cognitivo de aprendizado. Criando. Exaustivamente. Qualquer coisa. Pra valer ou apenas como exercício mental. O medo vai persistir, sim, mas aos poucos você vai se acostumando com ele.

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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