Blog do Henrique Szklo

Criativo que se leva muito a sério não merece ser levado a sério

Existem 3 questões que me fazem acreditar que a pessoa que se leva muito a sério perde sua capacidade de criar

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Muitos dos que trabalham com criatividade no dia-a-dia costumam sofrer de delírios relacionados à sua relevância para a sociedade e para a raça humana, mesmo que não se conheça uma razão palpável para tamanho orgulho. Opinião da mãe não serve. Entendo que o trabalho criativo é muito desgastante. Trabalha-se diariamente com o subjetivo e a dúvida acaba se tornando uma parceira incômoda, porém imprescindível. Sem contar a legião de palpiteiros que se sente no direito de julgar o trabalho, sem que muitas vezes tenham condições nem critério para tanto. Como uma forma de defesa de sua integridade profissional, os criativos acabam por se fechar e, para impedir as pessoas de ultrapassar a linha amarela inadvertidamente, vestem uma carapaça que toma a forma de arrogância, ou prepotência, como queira. Mais do que acreditar no próprio talento, esse comportamento denota justamente o oposto: insegurança. Não gostamos de ouvir opiniões que questionem nosso trabalho, principalmente se lá no fundo concordemos com elas.

Criativos que têm uma segurança relativa com relação à qualidade de seu trabalho, em geral, não desenvolvem esse comportamento beligerante. Não sentem necessidade de criar esse campo de força de antipatia. Os criativos do baixo clero são os que geralmente fazem questão de vestir a fantasia de gênio que tão claramente não lhes cabe.

Quando somos jovens, este deslize é até perdoável. Nos comportamos como idiotas egocêntricos, mas o tempo acaba por nos ensinar a dura lição: você está mais para um reles mortal do que para um deus. Os que resistem ao aprendizado, entretanto, acabam recrudescendo seu modus operandi, desenvolvendo um tipo bem mais grave de distúrbio comportamental: a tendência de se levar muito a sério. Para um criativo, se levar a sério demais é o oitavo pecado capital. A morte da fantasia.

Ser humilde demais é tão deletério quanto ser arrogante

Com razão, ninguém gosta de gente prepotente, mas a humildade em excesso também não faz um bom papel. É bom deixar claro que existem dois tipos de humildade: a segura e a insegura. A humildade segura é justamente relacionada às pessoas que citei acima: têm talento em uma determinada área, mas por serem suficientemente seguras de seu potencial, não saem por aí cuspindo genialidade na cara dos outros.

Já a humildade insegura é a daquele pobre coitado que por diversas razões tem quase vergonha de existir. Não como classe social, condição financeira, origem, capacidade intelectual, educação. São apenas atributos psicológicos que ocorrem por uma infinidade de fatores. Certamente, quando ouvimos que é preciso ser humilde, estão se referindo à humildade segura. Do contrário estaríamos estimulando as pessoas a se rebaixarem para serem aceitos.

O problema é que tanto a arrogância quanto a humildade são comportamentos que independem de nossa vontade consciente. Ninguém é humilde ou prepotente porque quer. Não existe curso de humildade. É um aprendizado que se dá numa longa jornada cognitiva e não por uma simples decisão racional. Terapia também ajuda. Mas tudo, como sempre, começa com a consciência da necessidade de mudar. O resto é sangue e suor.

Existem 3 questões que me fazem acreditar que a pessoa que se leva muito a sério perde sua capacidade de criar:

1) Criar é mergulhar para dentro de si mesmo e voltar para contar o que viu

Quem se leva a sério demais provavelmente tem sérios problemas em lidar com o erro, com as dúvidas. Tem pavor de falhar. Um pequeno deslize pode botar tudo a perder e ferir seriamente seu prestígio (que prestígio?). Não, não se pode permitir tamanha desonra.

Quando você se leva muito a sério, fica claro que está fechando os olhos para metade de você que, diga-se, é tão importante quanto a outra. É fundamental que reconheçamos e prestigiemos nossas qualidades, mas não podemos nos dar ao luxo de enfrentar o lado negro da força. Defeitos devem ser enfrentados e administrados com galhardia e tranquilidade. Não se pode eleva-los à condição de sina maldita nem tampouco ignorá-los. Precisamos olhar direto no olho do monstro se quisermos domesticá-lo. São nossas duas forças lutando exaustivamente para manter-nos vivos. O vento não sopra apenas para um lado. É o tal equilíbrio do universo segundo o taoísmo: Yin e Yang.

Reconheço que é muito difícil lidar com nosso lado repugnante. A maioria das pessoas sequer ousa pensar nisso. Esse contato incômodo se dá mergulhando pra dentro de si mesmo. Nas suas profundezas você vai encontrar belezas inimagináveis, mas principalmente feiuras insuportáveis a olho nu. Lidar com a própria formosura é fácil demais. Já olhar para seu lado sórdido e conseguir manter a altivez é para poucos. É o tal do autoconhecimento que, feliz ou infelizmente, só se dá na base do sacrifício.

O grande criativo, aquele fora da curva, pode até ser arrogante, mas certamente não se leva a sério demais. Nem conseguiria. Ele sabe de coisas que o impede de tamanho delírio. Ao contrário. Sabem que são falíveis e lidam com isso – bem ou mal – mas não se furtam em penetrar a caverna escura. Os gênios criativos da humanidade só chegaram ao panteão por fazer esta viagem com uma frequência assustadora para a maioria de nós mortais. Ao invés de passeios do ego, caminharam até suas almas atormentadas. Não por escolha, mas por necessidade psicológica. Várias pesquisas científicas, a propósito, apontam a alta criatividade como provável resultado de distúrbios mentais. Ou vice-versa.

2) Se levar muito a sério é menosprezar o humor

Em geral, as pessoas muito criativas têm senso de humor apurado. O humor é uma forma de expurgo dos pecados, de exorcismo das perturbações da mente, de diminuição do impacto das frustrações que a vida inevitavelmente nos presenteia. É o antídoto para o desconforto inerente à viagem interna. É a consciência dolorosa de nossa insistente falhabilidade que nos faz prestar mais atenção aos detalhes. O senso de humor tem a função primordial de desafiar e provocar Deus em sua perfeição improvável.

Aquele que não é capaz de rir de si mesmo não passa de um chato

Criativo que se leva a sério demais não admite o humor como virtude e sim como brincadeira, imaturidade. Não se dá conta de que utilizar o humor como ferramenta não quer dizer que o trabalho não seja sério. Ao contrário. É uma ferramenta poderosíssima de transmissão de conhecimento e simplificação de mensagens. Sem contar que ativa os hormônios que nos provocam prazer, como a dopamina.

3) Pessoa que se leva muito a sério não sabe brincar

A pessoa criativa também precisa alimentar o espirito infantil, continuar enxergando brinquedos onde eles não estão mais. Quem se leva muito a sério mantém sua criança interior sufocada, amordaçada em cárcere privado. Finge que ela não existe, que ela morreu. Não valoriza o lúdico, não dá espaço para imaginação e considera esta sua faceta como a negação da maturidade. Por isso, quando precisa criar, consegue apenas desenvolver ideias inofensivas e preguiçosas, na melhor das hipóteses.

Conclusão: o criativo que se leva muito a sério é uma contradição em termos

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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