Blog do Henrique Szklo

Razão: nossa bênção ou nossa maldição?

Continuação do artigo "Como o ser humano se tornou um animal criativo"

Leia a primeira parte deste artigo – Como o ser humano se tornou um animal criativo

O Max (2001 – 2016)

A Razão nos tirou da condição de animais incapazes de questionar, de refletir, de pensar. Em seus cérebros primitivos, os animais irracionais reagem automática ou intuitivamente ao que enfrentam. Não se consomem em dilemas filosóficos. Ou reagem pela programação mental, ou improvisam, caso seja um fato novo. O cérebro, em sua origem, foi programado para avaliar as situações levando-se em conta apenas os nossos sentidos. Se estou vendo uma coisa, ela está lá. Não importa se estiver mesmo ou não, porque o cérebro jamais saberá a diferença. Meu cachorro, o Max, se olhasse para cima e visse uma girafa cor-de-rosa voando não hesitaria em latir, afinal um elemento estranho invadiu seu território. Em seu pequeno e limitado cérebro não havia espaço para reflexões. “Peraí. Não tem girafa na cidade! Não existe girafa rosa e muito menos voadora! O que será que colocaram em minha ração?.” O Max recebia inputs de seus sentidos e reagia emocionalmente, instintivamente, sem pensar. Animais não buscam sentido na vida e sua lógica não sofre nenhum tipo de influência além da necessidade de sobreviver. Eles apenas são.

É a Razão que avalia a situação e coloca – ou pelo menos tenta – colocar tudo em um lugar confortável. É a Razão que tem o poder de questionar e enfrentar nossos sentidos. Negar que estamos vendo algo, ouvindo algo, sentindo algo. Vejo o rosto de Nossa Senhora em um pedaço de pão e meu cérebro reage: “Estou vendo a Nossa Senhora! É a Nossa Senhora!”. E a Razão retruca: “Mas é apenas uma coincidência, pois a textura do pão forma vários desenhos aleatórios e, francamente, não acredito neste tipo de fenômeno.” É claro que se você acreditar neste tipo de fenômeno a sua Razão acabará por confirmar a percepção do cérebro.

A Razão tem a capacidade de avaliar o cenário à nossa volta questionando o que os sentidos nos informam, sempre em busca de lógica.

É lógico!

Precisamos desesperadamente saber. Precisamos de lógica, que a partir do surgimento da Razão, passou a ser uma necessidade quase doentia e, por vezes, um fardo muito pesado para se carregar. É o ponto de interrogação que nos conduz. Se o Max (de novo ele) visse uma bolinha passar pela sua frente, correria imediatamente atrás dela. Mas se um ser humano vê uma bolinha passar pela sua frente, olha para o sentido contrário. Ele quer saber que bolinha é aquela, quem jogou, por que jogou, e por aí vai. Para nós, o não-saber é o fim da picada. Nos provoca medo, insegurança e, portanto, um grande desconforto. Quando sabemos, ou pensamos que sabemos – não importa – desaparece o medo, diminui a insegurança, nos acalmamos e atingimos nossa zona de conforto. É por isso que aquelas perguntas existenciais “De onde viemos?” e “Para onde vamos?” continuam e continuarão nos aporrinhando por toda a eternidade, a não ser que você acredite que saiba as respostas.

“Ter razão é uma ilusão.” Henrique Szklo

Antes e depois da Razão

A Razão nos trouxe grande evolução, mas alterou significativamente o nosso comportamento. Aumentou nossas opções de forma estonteante. A seguir, apenas alguns conceitos que apareceram em nossas vidas em função do surgimento da Razão:

  • A consciência do Eu (por exemplo, olhar no espelho e saber que somos nós ali refletidos)
  • A consciência da morte e todas as angústias correspondentes
  • O desejo (por coisas, acontecimentos, ser o que não é, não ser o que é, ser feliz, etc.)
  • Contrariar os instintos (tomar decisões racionais)
  • Mentir (também é social) – enganar é a ferramenta de algumas espécies para fugir de predadores ou emboscar presas. No nosso caso, usamos geralmente para atingir nossos objetivos, para nos livrarmos das consequências de algum ato e para não esgarçar a convivência social.
  • Necessidade de explicar tudo
  • Criação do conceito felicidade e a busca dele
  • Criação dos conceitos realidade e fantasia
  • Necessidade de rotular tudo
  • Comparar sua vida com a dos outros
  • Medo do que não aconteceu (sofrer por antecipação)
  • Necessidade de acumular e medo de perder o que acumulou
  • Capacidade de planejar
  • Compreensão de causa e efeito
  • Imaginar cenários futuros
  • Capacidade de improvisar por demanda, ou seja, o desenvolvimento da criatividade

O consciente no poder

A teoria de Sigmund Freud provou que podemos bisbilhotar as gavetas de nosso inconsciente

Outro efeito provocado pelo surgimento da Razão foi o largo desenvolvimento do nosso consciente, conferindo a ele poderes que não ostentava anteriormente. A Razão tem a capacidade de fazer constatações diferentes daquela que o inconsciente observa. E caso estas constatações sejam tratadas como relevantes, seremos capazes de realizar um esforço que, bem-sucedido, poderá interferir e alterar a lógica do próprio inconsciente. Por exemplo, em função da compreensão do consciente sobre si mesmo, podemos fazer as mais diversas terapias que alterem nosso comportamento ou até mesmo reprogramar o inconsciente com o uso de técnicas como a neurolinguística.

Deu zebra

É bem possível que esse desenvolvimento exagerado de nosso cérebro tenha sido resultado de uma falha genética. Um acidente, uma aberração que se desenvolveu demais, ou um macaco que caiu de cabeça no chão. A Natureza nunca privilegia o desequilíbrio, e a nossa existência “inteligente” está claramente subvertendo seus conceitos mais básicos. Nós somos o desequilíbrio encarnado. Somos predadores obstinados e, consequentemente, destruidores do meio ambiente.

Mas não se sinta tão mal assim. Qualquer espécie que ocupasse nossa privilegiada posição faria o mesmo. Por instinto, todos os animais ocupam espaços, preocupados com a sobrevivência e a manutenção da espécie. O leão, por exemplo, não é malvado porque come a zebrinha. Ficamos com pena dela, tão ingênua e pacífica, sendo vítima de tamanha violência.

Confundimos agressividade com maldade. Mas é apenas uma condição obrigatória para a sobrevivência destes belíssimos animais. Não tem maldade nenhuma nisso. Eles precisam comer e não tem nenhum restaurante perto nem um aplicativo de delivery. Além disso, esse encontro sanguinolento faz um imenso favor ao ecossistema. Se o leão não comesse a zebrinha haveria uma explosão populacional de zebrinhas. Elas comeriam todo o pasto da região e todas as outras zebrinhas, e todos os animais da região, morreriam de fome – exatamente como o ser humano faz com as fontes de energia renováveis. Então, é melhor ceder alguns indivíduos em nome do bem geral. Sem contar a seleção natural, pois provavelmente a zebrinha morta é a mais fraca, a mais doente a que nasceu com uma capacidade menor de correr. E seu gene incompetente, digamos assim, terá o destino que merece: o fenecimento. Essa é a lógica implacável da Natureza e seus códigos rigorosos e precisos, que o homem, com sua inteligência e criatividade, está tratando de invalidar. No que isso vai dar? Nem eu sei.

 

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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