Blog do Henrique Szklo

Quem não cumpre as regras tem mais chance de vencer

O que é condenável no convívio social é absolutamente necessário no processo criativo

No princípio, era a força física

O título deste artigo é um conceito mais do que conhecido por todos. De fato, é um esforço civilizatório entrarmos em algum confronto dispostos a seguir todas as regras na letra da lei. Por que seguimos este comportamento? Não é melhor fazermos tudo o que pudermos para vencer? Bem… depende.

As regras foram inventadas e têm sido aprimoradas desde os primórdios para oferecer um certo equilíbrio de forças entre os oponentes. É muito provável que este movimento organizacional foi e tem sido administrado por pessoas com reduzidos atributos físicos, principalmente no que se refere à força muscular. No início, os mais fortes mandavam e pronto. A medida que fomos evoluindo intelectualmente, os fortões passaram a ter adversários capazes de vencer confrontos sem mexer um único músculo.

A lei e a ordem

A inteligência, preocupada com sua integridade física e consciente de que poderia manipular as relações, passou a ter papel preponderante nas disputas por liderança. Aos poucos, foi-se limitando a liberdade dos trogloditas de fazerem uso de sua força quando bem entendessem. Sem que percebessem o golpe que estava por vir, foram cooptados e passaram a servir os inteligentes, cuidando de sua proteção e garantindo a força física necessária para o controle de grupos sociais. Como vemos, a força continuou sendo o elemento de desequilíbrio. Mudou apenas o perfil de quem a tem sob controle. No fundo, foi apenas uma disputa política.

A primeira Constituição do mundo

Grande parcela da população provavelmente vai preferir a força invisível da inteligência ao impacto real e indisfarçável da força física. Por isso as sociedades vivem sob regras cada vez mais sofisticadas. Aliás, quanto mais civilizado o país, mais sofisticadas as leis. E é a aceitação e respeito a essas leis que fazem com que os cidadãos comuns sintam-se protegidos de injustiças causadas por “gente poderosa”.

Nós vivemos de fato sob a batuta de gente mais poderosa, mas de uma maneira sutil e indireta que faz com que aceitemos de bom grado em troca de uma certa sensação de somos todos iguais. É por isso que quando a sociedade é permissível como a brasileira, a sensação de insegurança dos destituídos de qualquer poder é assustadora.

A balança desregulada

Porém, existe uma força irresistível que tem atravessado os séculos e parece não ter perdido força, ao contrário: são aqueles que não respeitam as regras. Não porque não saibam; esses são ignorantes inocentes. Estou me referindo àqueles que deliberadamente encontram chicanas e atalhos proibidos para atingir seus objetivos. É uma legião com muitos membros, em todo mundo, afinal, a vida de um lutador desleal é muito fácil. Suas chances de vitória são sempre maiores do que daquele certinho que insiste em tentar vencer pelas vias legalmente acordadas. Pobre criatura, vai apanhar e muito. E se não houver ninguém para mediar a disputa e impor as regras, o legalista vai sempre beijar a lona com seu rosto honesto todo arrebentado e transbordando sangue. E o contraventor vai levar o troféu. É por isso que o símbolo da justiça é uma cega com uma espada numa mão e uma balança na outra. Que perigo! Segura a mulher!

Vira essa espada pra lá!

É mais provável que isso aconteça quando não tem ninguém olhando. Momento em que nosso instinto toma conta de nossa mente e aí sim é cada um por si. No mundo civilizado, os desonestos só se arrependem quando são pegos. Até lá, são considerados espertos.

Percebemos nas histórias ficcionais em que o bem luta contra o mal, que no principio nossos heróis sempre se danam e os vilões ganham cada vez mais espaço, já que não há dificuldade em se cooptar pessoas quando você está por cima, de forma honesta ou não.

O herói e seu dilema

O dilema do herói é sempre esse: ele não pode se rebaixar para vencer a batalha porque afinal de contas ele está defendendo a civilização e não pode lançar mão da barbárie para atingir este objetivo, senão estará traindo os ideais para os quais ele vive e está disposto, inclusive, a morrer por eles. A justiça sempre deve prevalecer. Não importa como.

Ninguém é de ferro

Mas não tem jeito. No final da história o herói resolve fechar os olhos para um ou outro pecadilho, surpreendendo o vilão que contava com a lisura de seu oponente. Ou seja: para vencer o mal, o bem precisa imitá-lo, quebrando regras que jurou defender. E aí chegamos à máxima de Maquiavel e seus fins justificando os meios. É isso, ou viver sob o jugo dos opressores. É uma quebra de regras que vale a pena e provavelmente será perdoada por aqueles que foram beneficiados por ela. Mesmo pelos legalistas.

Tem mais essa: quem respeita as regras é totalmente previsível em suas ações. Já aquele que não respeita pode fazer o que bem entender, deixando a disputa absolutamente desequilibrada, pois o homem civilizado nunca sabe por onde e como o bárbaro irá atacar. É por isso que o dito honesto, aquele que respeita as leis, sempre precisa fazer um esforço muito maior, infinitamente maior, para conseguir vencer o indivíduo, digamos assim, livre das amarras legais.

A necessidade das instituições

Daí o surgimento das instituições controladoras: estado, religião, escola, justiça e tudo o mais que nos orienta e tenta impedir que sejamos estes animais incontroláveis que demonstramos ser quando não há regras claras a se seguir. Estas instituições fazem o papel de uma força maior, que tenta supostamente funcionar como ponto de equilíbrio entre os mais fortes e os mais fracos. Ei, não reclame. Não fui eu quem teve essa ideia. Se eles cumprem com seu propósito ou não já é outra história.

Senta aí e fica quieto senão não vai pro céu

Quem está disposto a vencer a qualquer custo sempre vai conseguir inventar uma maneira de burlar o sistema, seja ele qual for. É um jogo de cabo de guerra que acontece desde que o mundo é mundo. E provavelmente irá continuar. Aquela sociedade harmonizada, absolutamente equilibrada e pasteurizada que vemos em alguns filmes futuristas jamais se tornarão realidade. A não ser que uma força maior obrigue a todos a seguir as regras, sem exceção. O ano de 1984 te dá alguma pista?

A ilegalidade do processo criativo

Curiosamente, do ponto de vista da criatividade, este mesmo movimento, ao invés de ser uma ameaça à integridade das pessoas, é uma ferramenta poderosa de evolução e busca pelo bem estar. Repetindo o título deste artigo, quem não respeita as regras, tem mais chance de vencer. Criar é desrespeitar algumas regras. E as pessoas verdadeiramente criativas sempre irão desequilibrar a balança quando em disputa com alguém que insiste em manter suas crenças intactas.

Para ser um bom criativo, você tem de conhecer muito bem os padrões vigentes, com uma certa intimidade até, para saber, ou pelo menos intuir, quando, como e que padrão quebrar. Em que momento descumprir as regras e partir para a “ignorância”.

É difícil quebrar certas regras por vontade própria

A pessoa mais criativa precisa ser, como digo sempre, subversiva. Precisa estar sempre em busca de soluções heterodoxas diante de problemas novos ou antigos. E se lograr êxito, vai de fato desfrutar de uma boa vantagem diante de seus oponentes.

E essa é uma das razões pelas quais a maioria das pessoas têm dificuldade em desenvolver pensamentos criativos. Vivemos em uma sociedade que preza demais as regras e que por isso mesmo nos inculca a necessidade de respeitá-las a qualquer custo. E quando chega na hora de criar, nosso cérebro não encontra meios para realizar a tarefa, já que foi programado para rejeitar a quebra de regras de uma maneira geral.

Por isso precisamos encontrar maneiras de ir ensinando nosso cérebro que, neste caso específico, a quebra de regras não só é permitida como indispensável. Acredito que se, em primeiro lugar, tomarmos consciência de porque e como isso acontece e, paralelamente, realizarmos exercícios que corroborem essa consciência, aos poucos a capacidade criativa de qualquer pessoa irá se desenvolver de uma forma ou de outra.

Pesando na balança

Este é mais um dos exemplos de como a vida nos exige compreensão dos detalhes que nos cercam. Que nos ensina que não existe um “certo” absoluto nem um “errado” inquestionável. É o que eu chamo de Gangorra Vital: a necessidade de mudança de comportamento sobre uma mesma questão em função das necessidades. Quebrar as regras é errado em certas circunstâncias e certo em outras. Por isso precisamos estar sempre refletindo, pensando 7 minutos, para que possamos analisar em que momento devemos pender nossa balança para um lado ou para o outro, em qualquer questão que envolva nossas vidas.

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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