Blog do Henrique Szklo

O misterioso caso do sanduiche de picanha sem picanha

Não sei o que foi pior nesse picanhagate: a mentira ou a justificativa. “Lamentamos que os consumidores entenderam errado nossa mensagem”

Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro Watson, se vivos estivessem, não teriam dificuldade para resolver este mistério que ronda o país nos últimos dias: quem foi o malfeitor que surrupiou a picanha do sanduiche de picanha do Méqui?

Essa Mister Holmes desvendou sem precisar levantar da cadeira:

– Elementar, meu caro Watson. Ninguém roubou a picanha. Nunca houve picanha.

– Oooh! – dirão os clientes do Méqui, com a boca cheia de uma carne com falsidade ideológica.

Causa espanto observar que ainda nos dias de hoje, em que um jogo de futebol tem 36 câmeras, além do VAR, em que as gigantes da internet sabem até a cor da nossa roupa de baixo e que o reconhecimento facial impossibilita qualquer resquício de privacidade, que uma empresa do tamanho e da experiência do McDonald’s se aventure em uma pegadinha para iludir seu consumidor, imaginando que ninguém iria perceber a jogadinha de palavras, que o gostinho de picanha do molho seria suficiente para categorizar o produto com a alcunha de McPicanha. É mais ou menos como mentir no currículo, dizendo que fala inglês. Não no seu caso, claro.

Essa história me lembrou que quando a minha filha era pequena, ela pedia para tirar a carne do hambúrguer e deixar só o alface e o tomate. Aí sim era um honesto McBurger sem búrguer. Ninguém enganado. Todo mundo feliz.

Não é a primeira vez que o Méqui (ridícula coloquialização do nome) me decepciona. Me lembro de quando eles lançaram os sanduiches gourmet e eu fui lá experimentar. Uma experiência dolorosa para quem sempre foi fã da marca. Meu pensamento na ocasião foi “Esse sanduiche tem gosto de carne! Se eu quisesse um hambúrguer com gosto de carne não viria ao McDonalds!” Foi realmente decepcionante. Pensando bem, agora eu entendi. Tinha gosto de carne, mas devia ser só o molho. Boa Méqui!

Não sei o que foi pior nesse picanhagate: a mentira ou a justificativa. “Lamentamos que os consumidores entenderam errado nossa mensagem”. Essa foi de doer. Eu induzo as pessoas ao erro, depois lamento por ter atingido meu objetivo. Onde eles estavam com a cabeça? Que mequizice!

Uma coisa é um sanduiche durar um ano sem estragar. Isso a gente engole, afinal é uma prova de qualidade. A suspeita de usar amônia para tirar os restos de sebo dos ossos pra por no hambúrguer, também não tem problema, amônia está na natureza, não deve fazer mal. O rumor de que o hambúrguer era feito com minhocas, vale o risco pelo folclore e pela quantidade de proteínas, muito maior do que se fosse uma massa a base de carne. Um cardápio com mais calorias do que a superfície solar? E daí. Meu corpo, minhas escolhas, meu colesterol. Mas não ter picanha no sanduiche de picanha, aí já é demais. É abusar da nossa amizade. É não respeitar os milhões de zumbis hipnotizados por um palhaço mau caráter. É a tal história: serás eternamente responsável por aquele que vicias. Aliás, por onde anda o Ronald? O que foi que ele aprontou pra ter sumido desse jeito? Assumiu o marketing da empresa? Chama o Sherlock.

Esse é um tipo de situação com forte potencial de virar lenda e ficar para a História. Não que isso seja um problema para o Méqui, como já vimos no parágrafo anterior. É quase certo de que semana que vem todo mundo vai esquecer o imbróglio e voltar alegremente às mesas engorduradas e ao chão escorregadio. Porque o consumidor do McDonald’s é como a mulher do Artur Aguiar do BBB: sempre perdoa.

close

66 Frases Inspiradoras sobre Criatividade e Inovação, de Henrique Szklo

Política de privacidade

Mostre Mais

Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG), graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP e pós-graduado em Neuropsicologia pela FAMEESP, exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é pesquisador da criatividade e do comportamento humano utilizando uma abordagem neuropsicológica do assunto. Além disso é escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. É professor do MBI da UFSCar e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade), é palmeirense e não-negacionista.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao topo