Blog do Henrique Szklo

O medo de criar é o medo de entrar na caverna escura

O desconhecido sempre nos proporciona sentimentos desconfortáveis

Certa vez um homem foi visto procurando por alguma coisa no chão de uma floresta. Um amigo seu, ao passar, perguntou o que fazia ali e ele respondeu: “estou procurando a chave da minha casa”. O amigo, prestativo, juntou-se a ele na busca. Passaram-se alguns minutos e outras pessoas curiosas com aquela cena perguntaram o que estava acontecendo. Informados, passaram também a ajudar a encontrar a chave perdida. Não muito tempo depois já havia uma pequena multidão rastreando a floresta e nada de encontrar a tal chave. Até que alguém resolveu fazer a pergunta que ninguém havia feito até então: “mas onde foi que você viu esta chave pela última vez?”. E o dono dela respondeu: “Eu estava numa caverna muito escura que visitei hoje pela manhã. Breu total. De repente, senti ela caindo do meu bolso e fiquei em pânico. Me deu muito medo de ficar lá procurando, por isso resolvi procurar aqui fora”.

Onde está a maldita chave?

Moral da história: nós temos a tendência de procurar as coisas onde é mais fácil, onde é mais confortável, mais conveniente, onde está iluminado e não onde elas provavelmente estão. A maioria de nós não tem estrutura emocional para ficar entrando o tempo todo em cavernas escuras. Preferimos repetir fórmulas antigas ou até mesmo atirar na direção errada. Tudo para evitar o medo.

Não tenhas medo

Este título é de uma idiotice sem par. É mais ou menos como sugerir a uma pessoa que ela não deva respirar para evitar problemas pulmonares. O medo é parte integrante de nossa vida. Mais que isso: é uma ferramenta biológica fundamental para nossa sobrevivência. Uma força incontrolável que tenta nos manter longe dos perigos. Por isso, tudo o que não conhecemos nos provoca medo. O medo do novo é natural, é importante, é genético.

Em tese, o medo serve para evitar que façamos coisas idiotas que arrisquem nossa vida.

Graças ao medo e ao estado de alerta que ele provoca, conseguimos nos proteger de ameaças, sejam elas reais ou imaginárias. Por exemplo, o medo de morrer, nosso sentimento mais comum e aterrador, associado ao nosso medo de sentir dor, faz com que não atravessemos uma rua sem olhar para os lados nem nos joguemos do alto de um prédio ao invés de pegarmos um elevador, ou enfrentemos animais selvagens de mãos vazias. Graças ao medo e o sentimento desagradável que ele nos provoca, nos comportamos de forma a tentar evitá-lo ao máximo. Quanto mais envelhecemos, mais medo acumulamos. Quando jovens, nossa pouca experiência e consciência das coisas que podem acontecer na vida fazem com que muitas vezes sejamos irresponsáveis com relação à nossa integridade física.

O uso de drogas ou de bebidas alcoólicas funciona exatamente para reprimir nossos medos e termos a sensação de que as coisas são menos perigosas do que realmente são. O próprio estresse é um acúmulo de medos não resolvidos. Ter medo, portanto, faz parte de nossa estrutura emocional e nos auxilia a sermos quem somos. Todos sentimos medo. Não existem super-heróis que não têm medo de nada. Uma pessoa muito poderosa pode ter medo de ficar velha, por exemplo, e a despeito de todo o seu poder, nada que ela faça dissipará este sentimento. Um soldado bem treinado e frio, num campo de batalha pode ter medo de ficar impotente ou um monge pode ter medo de perder a fé. Enfim, não há ser humano que não sinta medo de alguma coisa, já que esta ferramenta nos foi disponibilizada para que a usemos. Querendo ou não. O melhor que podemos fazer com relação ao medo é tentar administrá-lo. Usar a nossa razão para questioná-lo e, a despeito de um eventual desconforto, contrariá-lo, tomamos as decisões que consideremos mais adequadas nos momentos de crise.

O medo nunca vai desaparecer.
Esconda-se nas convenções ou acostume-se a ele

Criar é entrar na caverna escura

Existe um medo que é bastante recorrente nos seres humanos que é o medo do escuro, mesmo em adultos. As cidades, em sua grande maioria, são muito iluminadas durante a noite, não apenas para as pessoas enxergarem, mas também para aumentar a sensação de segurança e diminuir o medo. O escuro em si não é o problema. É o que ele esconde em suas sombras que nos atormenta. É a ignorância ou o “não-saber” provocado por ele que nos apavora. Se você, por exemplo, estiver fazendo uma trilha na mata e de repente encontrar uma caverna escura em seu caminho, vai fazer o quê? Chamar seus amigos, empolgado, convidando-os a entrar? Claro que não, a não ser que você seja algum tipo de estudioso ou de maluco. Mas qual é o problema, então, de entrar em uma caverna escura? Podem haver animais selvagens, insetos peçonhentos, um buraco perigoso, monstros horrendos e sanguinários, vampiros, espíritos malignos (nossa imaginação vai longe quando pensamos em lugares escuros), etc. Mas, pode não haver simplesmente nada ou, em casos raros, um riquíssimo tesouro. Indiana Jones sabe muito bem do que estou falando. E Platão também.

Entre, não tenhas medo!

Criar é enfrentar o medo de lidar com o desconhecido. É tatear no escuro. É não saber o que está a um centímetro do seu nariz e mesmo assim ir em frente. É correr riscos. E isso, obviamente, provoca uma tremenda insegurança. E aí, na maioria das vezes, decidimos procurar a chave onde ela certamente não está. E Freud já dizia: “A pessoa só muda quando o desconforto for maior do que o medo da mudança.”

Quando o bom senso nos impede de criar, não é bom senso.
É medo.

O medo de criar é o medo do escuro

Mas engana-se quem pensa que quem está acostumado a trabalhar com Criatividade consegue enxergar na caverna escura, entrando lá assobiando, despreocupadamente. Vamos acabar de vez com aquele símbolo tão tradicional da Criatividade: a lâmpada. A pessoa dita mais criativa não tem uma lâmpada embutida que pode acender em sua cabeça ao entrar em cavernas escuras. Na verdade, desenvolver sua capacidade criativa é acostumar-se à escuridão. É como entrar em um lugar escuro e seu olho adaptar-se a ele, dilatando suas pupilas. Nosso cérebro, ao penetrar no breu da incerteza e da dúvida e permanecendo por lá durante algum tempo, inicia um processo que eu chamo de Dilatação da Pupila Cerebral. Não enxergamos perfeitamente, apenas sombras, mas isso já nos é suficiente para caminharmos com um pouco mais de segurança e desenvoltura. Não muito, mas ajuda. Quem quer fazer um trabalho eminentemente criativo sempre terá de entrar em cavernas escuras. Não importa a idade nem o tempo que você pratica, o processo criativo sempre exigirá de nossas pupilas cerebrais. E também de nosso emocional.

Só a certeza diminui o medo

Temos medo de muita coisa, admitamos. E, paradoxalmente, o fato de sermos inteligentes criou um espectro de medos maior e mais complexo do que o dos animais irracionais. Não temos medo apenas do escuro, ou seja, do novo, do desconhecido. A capacidade de pensar associada à nossa estrutura social nos fez extremamente permeáveis a um conjunto especial de medos. Todos relacionados à alteração de nosso status quo. O medo de errar, de ser taxado de idiota, burro, louco, de ser criticado, de ser inconveniente, de se expor, de decepcionar os outros e a si mesmo, medo de não ter controle da situação. Temos medo das consequências de nossos atos. Da possibilidade de sermos excluídos de nossos grupos sociais em função de um gesto impensado ou uma palavra torta.

Humanos nasceram para viver em grupo. Por isso temos medo de desagradar nossos iguais. Não arriscamos dizer ou fazer nada que coloque em risco nosso status quo. E criar é um risco

 

É por isso que buscamos sempre “ter certeza” daquilo que estamos dizendo ou fazendo. E a busca pela certeza é uma sentença de morte para o pensamento criativo. Daí a dificuldade de a maioria das pessoas se considerarem criativas. A confusão é tanta, que acabou-se elevando a criatividade a uma condição de dom divino, de capacidade reservada apenas a pessoas especiais, gente diferenciada, inatingível pelos simples mortais. E isso é uma grande bobagem. Criatividade não é um bicho de sete cabeças. É de uma só: a sua.

O problema não é saber ou não saber criar e sim ter a determinação, foco e vontade para resolver um problema de forma diferente daquelas consagradas. E isso só acontece se você aprender a administrar o medo.

 

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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