Blog do Henrique Szklo

Hoje, morreu meu mestre

GIlberto dos Reis (04/07/1950 - 17/07/2018)

Crédito: Blog do Adonis

A Escola Nômade para Mentes Criativas está de luto. Um dos maiores redatores da história da propaganda morreu hoje. Mas eu não estou nem aí para a história da propaganda. Gilberto dos Reis, o Giba, foi meu mestre. Uma das pouquíssimas pessoas que eu admirei e, principalmente, respeitei quando era publicitário.

Foi meu chefe duas vezes. Aquele cara que dava até raiva porque você levava uma ideia mais ou menos para ele e ao adicionar uma vírgula transformava a peça em genial. A pessoa com quem eu mais aprendi. Mas talvez você não o conheça. Ele era discreto. Nunca fez estardalhaço de seu trabalho. Porque era só isso que ele queria: fazer trabalhos memoráveis. Era isso que ele buscava e que o alimentava.

Uma boa pessoa. Uma excelente pessoa. Não era muito humilde, o que eu acho uma qualidade. Ele podia não ser humilde. Conquistou este direito muito jovem. Mas tratava seus colegas da melhor maneira: como colegas. Defendia sua equipe com disposição e senso de responsabilidade. Eu era insuportável, e provavelmente ainda sou, mas ele conseguia encontrar por trás da minha carapaça de cara difícil uma ou duas qualidades. Daí o meu respeito por ele.

Não éramos amigos de se frequentar. Mas sempre tentei manter contato. Soube há uns meses que ele estava sofrendo com uma séria doença, mas jamais imaginei que ele fosse tão cedo. Quando fiquei sabendo de sua morte tomei um susto tão grande que comecei a chorar que nem uma criança. Meu mestre morreu. Meu mestre morreu. De repente ficou muito claro pra mim que quando um mentor morre, parte da nossa história morre com ele.

Mais do que trabalhar com ele, nossas vidas se entrelaçaram de uma forma extraordinária. Contando vai parecer até mentira, invenção.

Quando eu tinha 15 anos estava fazendo um curso de desenho publicitário na Escola Panamericana. Estamos falando do meio da década de 70. A Fiat tinha acabado de chegar ao Brasil com seu modelo 147. Pois justamente a lição que tive de realizar na escola era criar um anúncio para o carro. Na mesma época, existia um fundo de investimento que você podia utilizar para abater no imposto de renda: o Fundo 157. muito conhecido e divulgado na mídia.

Pois bem: fiz um anúncio dizendo “Aplique seu dinheiro no nosso 147”. Achei legal, mas quando mostrei para os meus pais, a casa ficou em polvorosa. Eu que era, segundo minha mãe, “apagadinho”, passei a ser notado. Acharam até, para a surpresa de todos, que eu poderia ser um pouco inteligente. Aí eu achei uma boa ideia seguir essa carreira que me proporcionava a oportunidade de ser notado pelas pessoas.

Corta. Estou 10 anos depois, já um profissional da propaganda folheando um anuário antigo do Clube de Criação de São Paulo, de mais ou menos 10 anos antes. Para minha surpresa, numa das páginas vislumbrei um anúncio com o título: “Aplique suas economias no 147”. Mil vezes melhor que o meu, óbvio, mas com a mesma ideia. Minha surpresa foi aumentando. Era o Grand Prix, ou seja, o melhor anúncio daquele ano. Eu não estava acreditando no que via, mas as surpresas não tinham acabado. O criador daquele anuncio: Gilberto dos Reis. E quem era Gilberto dos Reis naquele momento de minha vida? Meu chefe.

Não acredito em Deus nem nada parecido, mas aquilo foi extraordinário. Uma conexão estranha por termos ido com a cara um do outro desde a primeira vez, eu, um redatorzinho e ele já Diretor de Criação da Almap, a agência mais criativa da época. Como disse, nunca fomos amigos, mas o laço existia. Na minha visão, transcendia um simples relacionamento profissional. Sei que o pessoal com quem ele se dava no mercado não gostava de mim. E mesmo assim ele me bancou. Várias vezes. Se isso não é sinal de respeito, não sei mais o que é.

Ainda me custa a acreditar que você não está mais aqui. Falei com a Lena há poucos dias sobre você. Ela fez aquela cara de quem já tinha ouvido aquela história milhões de vezes, mas, educadamente, me deixou contar de novo. Pode ter certeza, você foi parte muito importante na minha vida.

Giba, meu mestre, você vai fazer falta. Apesar de não nos vermos pessoalmente há muitos anos, eu sempre gostei de pensar que talvez você também achasse que eu era seu amigo. E isso me enchia de orgulho.

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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