Blog do Henrique SzkloO que podemos aprender

Goooooooool de Adolph!

Aparentemente, o pensamento subversivo já nasceu comigo e me acompanhou por toda a minha vida

Lá pelos anos 70, quando ainda não existiam computadores, videogames e outras formas de fazer as crianças não incomodarem seus pais, elas eram obrigadas a usar sua imaginação para brincar. Não existiam universos prontos. Era preciso criar seus próprios. Um pincel atômico transformava uma caixa de papelão grande em uma sofisticada nave espacial. Um velho cabo de vassoura só precisava de alguns pregos para se transformar em alguma coisa parecida com uma espingarda laser, e por aí vai.

Neste cenário, lá estava eu, um jovem pré-adolescente, cuja brincadeira preferida era o jogo de botão. E na época eu até que era bem organizado. Tinha vários times e um caderninho onde anotava tudo. Os campeonatos eram registrados de maneira germânica. Escalações, gols, cartões, etc. O scout completo. Gostava tanto que jogava até sozinho. No princípio, as partidas eram realizadas no Estrelão, campinho que a gente comprava pronto. Após alguns anos, ele ficou muito pequeno para mim e meus atletas. Comprei uma chapa de eucatex e construí minha própria arena.

Osmar Santos

A narração das partidas era do grande Osmar Santos, dentro da minha cabeça. Porém, o que dava realmente um molho especial àquela liga de futebol de botão eram os times. Não tinha Palmeiras, Corinthians, Flamengo. Eu não achava graça nenhuma nestes times. Preferia criar novos.

Naquela época, a revista Placar trazia toda semana em suas últimas páginas 4 escudos de algum time, justamente para municiar os professores mirins de todo o Brasil. A publicação repetia o time durante 3 semanas para que pudéssemos montar um elenco completo com 12 jogadores. Minha rotina era recortar cuidadosamente os escudos, depois escrevia o nome de cada jogador na máquina de escrever, recortava e colava. Quando não conseguia os escudos, pintava os jogadores com tinta guache.

Eu e meus amigos não tínhamos problema em misturar modelos de jogadores num mesmo time. Aliás, era comum visitarmos relojoeiros para conseguir tampinhas de relógio velhas, excelentes para chutar encobrindo o goleiro. Esses eram os craques dos times. Também tínhamos o hábito de lixar os jogadores comuns para facilitar o deslizamento no campo. O negócio era muito sério para nós.

Craque
Inteligência

Com o escudo do Internacional de Porto Alegre, por exemplo, cujo escudo apresenta a sigla SCI, criei o Sport Club Inteligência, com os grandes gênios da humanidade. Einstein era o número 10, camisa-símbolo do craque do time. Não se gabem, colorados nem se ofendam os gremistas. Foi só por causa da sigla.

Animal

Com o escudo da seleção da Argentina, criei o Animais Futebol Arte, sendo o Leão o número 10. E para não criar um conflito diplomático, garanto ao povo argentino que não é uma provocação nem um xingamento. Mais uma vez, só escolhia os escudos por causa das letras da sigla.

Com o escudo da seleção sueca, fundei o time da sua família: o grande e tradicional Szklo Futebol Força. E adivinhe quem era o camisa 10? Como minha família era pequena, tive de escalar alguns agregados, inclusive o cunhado, sempre legado ao banco de reservas, claro.

Mas o mais subversivo de todos os times criados foi aquele que criei utilizando o escudo da seleção holandesa: o Nazismo Futebol Clube. E para tanto, precisei fazer uma breve pesquisa. Em casa e gente tinha um livro sobre o holocausto e foi lá que encontrei os nomes que iriam definir a escalação. A Hitler, sem dúvidas, foi dedicada a camisa 10. A subversão, neste caso, chega a níveis elevados quando nos damos conta de que a minha família é de origem judaica.

Portanto, em princípio, o simples fato de pensar num time assim já faria de mim um pecador repulsivo, mesmo com apenas 10 anos de idade. Que dirá ter esta ideia materializada. A sorte é que na época ninguém dava muita atenção às crianças, pelo menos esta criança aqui, e ninguém da minha família ficou sabendo. O criminoso conseguiu escapar ileso do mármore do inferno. Em minha defesa, porém, sempre fiz questão de frisar que o Nazismo FC era o pior time da liga. Ou seja, o bem sempre vencia o mal, como todos gostamos que aconteça.

Naquela época, sinceramente, não vi nada de errado nisso (como não vejo agora). Não me considerava estranho (mais ou menos) nem nutria um orgulho especial pela criação de meu universo futebolístico particular. Não tive sequer o propósito de ser criativo. Queria apenas me divertir, duplamente: jogando botão e achando graça de cada jogador que o Osmar Santos narrava ao tocar na bola.

O que eu não me dei conta na época, é que, inconscientemente, produzi alguns pensamentos criativos, utilizando ferramentas fundamentais para o processo:

O que podemos aprender com esta criança perturbada

O “profexô” Henrique

É óbvio que eu não sabia nada disso e portanto não fiz de caso pensado. Mas olhando hoje, dá para perceber algumas características importantes para o desenvolvimento de ideias criativas.

 

  • O prazer de fazer diferente – Não achava graça nos times normais
  • Utilizar o material que se tem a mão – Usar o escudos que vinham na revista para criar o nome/tema dos times em função deles
  • Pesquisar – A importância extraordinária da pesquisa de referências sobre o processo criativo.
  • Pensamento subversivo – Capacidade de pensar, mesmo inconscientemente, coisas que a maioria das pessoas evita, por medo, preconceito, questões morais e éticas ou simplesmente não lhes ocorre.
  • Utilização de indutores – A busca maior era encontrar um bom indutor, ou seja, um tema que me desse a oportunidade de fazer uma lista com pelo menos 12 nomes e que fosse necessariamente divertido.
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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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