Blog do Henrique Szklo

É preciso respeitar o diferente. Mas seu cérebro não quer

Primeira parte do artigo que fala sobre os padrões que nos regem e controlam

Uma das maneiras mais engenhosas que o cérebro descobriu para economizar a energia que ele tanto valoriza foi criar um complexo sistema de captação, classificação, estocagem e busca de informações. Por isso temos capacidade incrível de aprender, organizar o que foi aprendido, guardar e, quando necessário, lançar mão deste conhecimento em nosso favor.

Você já reparou a quantidade de coisas que faz automaticamente? Sem pensar, ou seja, sem dispender energia desnecessária? Escovar os dentes, escrever, falar, realizar as tarefas de seu trabalho diário etc. Tudo começa com uma grande dificuldade de aprendizado, não é assim? Parece que jamais conseguiremos. Aí, de repente, após um certo tempo de repetição e perseverança a coisa fica fácil e leve.

De repente, parece que sempre soubemos fazer aquilo. Na verdade, criamos um padrão. Nosso próprio comportamento é resultado de um conjunto enorme, complexo e integrado de padrões. Nossa cultura, nosso jeito de ser, enfim, tudo o que fazemos no piloto automático são padrões.

O  cérebro constrói rotinas e modus operandi que transformam alguns de nossos hábitos (que, na verdade, são sinônimos de Padrão) mais prosaicos em um verdadeiro processo que nos lembra o funcionamento daqueles robôs que fabricam automóveis. Fazemos sempre tudo igual. Por quê? O nosso cérebro precisa economizar energia.

Sem foco não existe aprendizado formal

Basicamente o que ocorre é que o cérebro precisa de foco absoluto quando está aprendendo alguma coisa. Sua atenção precisa ser total e isso consome muita energia. A partir do desenvolvimento do aprendizado o consumo vai caindo até que ele seja insignificante. E não precisamos mais nos concentrar. Virou automático.

O cérebro só consegue manter seu foco em apenas um evento por vez. Se precisarmos dividir a atenção, o aprendizado será prejudicado de forma evidente.

É claro que podemos aprender as coisas inconscientemente ou através de um trauma, por exemplo, mas esses são tipos diferentes de aprendizado. O foco se torna indispensável quando tomamos a decisão consciente de aprender algo.

Tudo é Padrão

Podemos dizer que existem vários tipos e tamanhos de padrão. Desde a perna que usamos primeiro ao vestir uma calça, passando pelo jeito que encaramos nossos problemas, até a maneira como vemos o mundo.

Não existe “não-padrão”. Tudo, mas absolutamente tudo o que cremos, pensamos, a forma como agimos, são padrões adquiridos e/ou construídos de alguma forma. Quando abandonamos um padrão qualquer, imediatamente passamos a construir outro. Não existe um “purgatório” onde um pensamento ou comportamento fique a espera de se transformar em um padrão. Você se veste todo o dia com a mesma cor e decide mudar. Passa a usar cores diferentes em dias aleatórios. Cores diferentes em dias aleatórios é um padrão.

O que nós comumente classificamos de caos, não existe na irrepreensível lógica matemática da Natureza. Na verdade, usamos a palavra caos para definir tudo aquilo que não compreendemos.

O cérebro busca lógica, o tempo todo. E lógica nada mais é do que um conjunto de informações que fazem todo o sentido para nós. E os padrões são este conjunto. Quando não entendemos a lógica de algo, ficamos incomodados. A percepção de nossa ignorância relacionada a um assunto que consideramos relevante é insuportável. Tanto que às vezes inventamos uma explicação sobre algo que não compreendemos para confortar nosso pobre coração. O que estamos, na verdade, é formando padrões.

O que o Padrão nos oferece?

Passaporte para a zona de familiaridade (conforto) – Quando estamos no padrão, estamos confortáveis. Toda vez que fazemos, pensamos ou vivemos algo que foge dos nossos padrões, sentimos um desconforto de intensidade correspondente à distância entre esta “coisa” e as nossas crenças.

Se você resolver ficar pelado na praia de Copacabana, vai sentir um grande desconforto, seja vindo de você mesmo, seja pela reação das pessoas à sua volta. Se, por outro lado você resolver ficar pelado em uma praia de nudismo, o conforto será quase que garantido. Em Roma, faça como aqueles que nasceram naquela cidade. É uma quase garantia de que não será criticado por suas ações. E você, consequentemente, se sentirá mais confortável.

Segurança – Não existe maneira de se sentir mais seguro do que fazendo o que você já conhece e domina, o que já está consagrado, o que todo mundo aceita.

Equilíbrio – A sensação de equilíbrio pessoal de um indivíduo está diretamente relacionada à quantidade de padrões que ele respeita e segue. Uma pessoa que quebra muitos padrões está sempre colocando seu prestígio, sua dignidade, seu nome, sua integridade em risco. Fora a insegurança, o medo e a ansiedade inerentes à este comportamento.

Sensação de estar fazendo “a coisa certa” – Se todo mundo faz uma coisa, é porque é o “certo”. Isso não é exatamente uma verdade, mas é assim que nosso cérebro funciona. Como uma das maneiras de aprendermos é a imitação, temos a tendência – forte – de acreditar que a maioria tem sempre razão. Então, se você está dentro dos padrões, está fazendo o que a maioria faz, portanto, você está “certo”. Parabéns a você!

Sensação de aceitação social – Uma pessoa que se comporta como todo mundo, tem a tendência de ser aceita pelo grupo social a que pertence. Já a pessoa que se comporta de maneira diferente do grupo, é muito provável que ela será expurgada de seu convívio. Por vontade própria ou por ação específica do grupo. Os padrões entraram em conflito, já não compartilham das mesmas crenças, portanto não há mais razão para compartilhar a sua companhia.

E é por todas essas razões relatadas acima que o nosso cérebro não gosta e não aceita o novo, o desconhecido, o diferente. Até que ele vire um padrão.

Leia a segunda parte deste artigo

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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