Blog do Henrique Szklo

Deixa a vida me levar o cacete!

Não faz o menor sentido você deixar seu inconsciente tomar todas as decisões por você

O cérebro somos nós, mas está dividido em duas partes bem definidas. É como se fossem dois cérebros distintos, duas pessoas diferentes, que, apesar de estarem interligados até a raiz dos neurônios, têm funções, atribuições e comportamentos dessemelhantes. São interdependentes, mas também nem sempre chegam a um acordo.

Nosso cérebro é Bicho-Grilo

Pensar cansa

O primeiro é aquele comumente chamado de consciente: menorzinho, com pouco poder, mas muito exibido, meio fanfarrão. Este, vamos chamar de Grilo. O segundo é o chamado inconsciente, que apesar de muito maior que o outro é discreto, porém, é o detentor do poder verdadeiro sobre a nossa vida, nossa personalidade: nossa herança genética, nosso instinto, nossos desejos carnais e animalescos. Praticamente uma entidade dentro de nós que trabalha a nossa revelia, fazendo o que julga ser melhor sem perguntar se o Grilo concorda ou não. É tão ardiloso que muitas vezes (a maioria delas, diga-se), nem percebemos que foi ele o poder decisor.

Acreditamos que nossa reação a um evento foi fruto de nossa reflexão ou independência, pobres diabos que somos. É triste, mas ele nos manipula sem que percebamos. A este ditador daremos o nome de Bicho. É isso aí, nosso cérebro é um autêntico Bicho-Grilo.

O Grilo é aquele com o qual nos identificamos e nos percebemos como indivíduos. Aquele que nos dá a impressão de ser completo e dono absoluto de nossos pensamentos e atitudes, mas que na verdade não passa de um garoto de recados, responsável por criar um relacionamento entre o mundo externo e o Bicho. Não é um autor, mas um intérprete. A ante sala da verdadeira central de controle. Resumindo, é a rainha da Inglaterra; tem a função de representar o poder, mas apenas isso. Quem manda e desmanda em nossa vida é o Bicho.

A Razão mudou tudo

Com o surgimento da Razão em nossa espécie, o Grilo ganhou importância, cresceu, pois se tornou capaz de questionar o Bicho, fazer análises, pensar em perspectiva, planejar, prever, etc. Este pequeno avanço nos deu a sensação de domínio de nossa máquina orgânica.

Nos animais irracionais, o Grilo permanece com sua função primária que é ser uma interface entre o Bicho e o mundo externo. Animais não analisam nada, não questionam, não defendem teses de mestrado. Apenas reagem. O Grilo dos outros animais só serve para as decisões mais imediatas: “Quero andar”, e ele anda. “Quero tomar água”, e ele vai lá e se hidrata. É um canal passivo, responsável apenas pelo que se chama de “controle da ação voluntária do sistema muscular esquelético”. É aquele responsável pela tomada de decisão racional. Vou andar, vou comer, vou falar. Fora isso, todo o resto é controlado pelo Bicho.

Segunda-feira: academia!

Só um exemplo simples para demonstrar o poder de cada um. Quantas vezes você tomou a decisão de começar a fazer regime ou a frequentar a academia, ou a parar de beber, enfim, quantas vezes você tomou uma decisão racional e ela não se concretizou? Pois é. O fracasso reiterado acontece por uma razão simples: quem tomou a decisão foi o Grilo, aquele que você controla, mas que não tem poder nenhum. Se o Bicho não se convencer de que aquilo é importante você vai ter imensas dificuldades em cumprir com suas promessas.O Grilo vai ter de fazer grandes esforços repetidos e constantes para conseguir levar a cabo suas decisões.

Um não vive sem o outro. O Grilo usa o repertório do Bicho como ferramentas para se relacionar com o mundo à sua volta e o Bicho usa a flexibilidade do Grilo para se adaptar. Em nosso caso, os seres humanos, a diferença é clara: o Grilo tem dúvidas, questiona e o Bicho afirma. O Bicho é “!”. O Grilo é “?”.

Captando vossas mensagens

O Grilo é a porta de entrada das informações que acumulamos ao longo de nossa vida, mas não é a única. O Bicho também conta com esta capacidade. Aliás, o Bicho tem muito mais competência nesta área que o Grilo, que só consegue captar uma coisa por vez. Só que a nossa necessidade de sobrevivência é tão primordial e indispensável que alguém tem de estar sempre alerta e preparado para perceber tudo o que acontece a nossa volta. E esta missão é conferida ao Bicho. É uma verdadeira enxurrada de informações simultâneas, e este pandemônio faz com que o Grilo deixe passar uma boa parte sem perceber. É por isso que muitas vezes temos informações em nosso inconsciente que não sabemos onde as captamos.

Os componentes relacionados ao nosso código genético estão todos no Bicho. Funcionamos e reagimos na maioria das vezes sem saber que estamos apenas seguindo uma programação prévia. Em geral, acreditamos que estamos no controle de nosso comportamento, mais isso é uma ilusão.

Não deixe o seu pensamento te levar. É você quem tem que levar seu pensamento.

Boicote não

Não estou aqui querendo demonizar nosso inconsciente, longe disso. Ele é fundamental para nossa sobrevivência. Porém, sua função muitas vezes pode ser erroneamente interpretada. Quando, por exemplo, uma pessoa está acostumada ao fracasso, ou seja, sua zona de conforto – ou como prefiro chamar, Zona de Familiaridade¹ – é ser fracassada, qualquer sinal de encaminhamento para o sucesso vai causar arrepios no Bicho. Não é que ele não queira nosso bem. o contrário. Porém, como ele é programado a considerar “nosso bem” apenas aquilo que já conhecemos, ele acaba, à nossa revelia, tomando alguma atitude que comprometa uma mudança importante. É o famoso tiro no pé. O Bicho não faz juízo de valor. Não analisa as circunstâncias nem reflete sobre o assunto. Toma suas decisões baseado apenas na manutenção dos nossos padrões. Por isso, boicote é uma palavra que considero equivocada para definir esta situação.

Eu não quero fazer sucesso!

Tomando o controle da nossa vida

Quando você abre mão de tomar decisões racionais, ou seja, deixa que o Bicho tome conta da sua vida, a possibilidade de você ter uma vida besta é gigantesca. Vai nascer, crescer e morrer sem ter causado impacto na vida de ninguém. Nem na sua própria. Mas como fazer para administrar o Bicho para que ele não tome todas as decisões por mim? Pensando 7 Minutos, refletindo nos momentos relevantes de sua vida. Analisando se sua reação a um evento é a melhor forma de reagir ou é só o Bicho mandando você respeitar seus padrões.

Poder e responsabilidade

Já que como seres humanos nosso Grilo adquiriu a capacidade de questionar o Bicho, por que não usá-la. É como ter uma Ferrari na garagem mas só usar para ir na padaria. Nós temos mais poder hoje e não deveríamos abrir mão dele. Mas como diz o Homem-Aranha, junto com o poder vem as responsabilidades. E a maioria das pessoas não quer carregar o fardo de tomar decisões com a própria cabeça. É uma pena. Um desperdício de neurônios.

Cheers!

É claro que jamais você conseguirá botar um cabresto no Bicho. Ele nos controla e sempre nos controlará. Mas como tudo na vida que não tem jeito, precisamos aprender a administrar. Esta é a palavra mágica: administrar. Observar, analisar, compreender e refletir sobre o que pode ser feito dentro de nossas limitações. É o máximo que podemos fazer. Mas já é um imenso passo para a liberdade (qualquer que seja o significado desta palavra)

É um dilema que você precisa enfrentar. E pode ter certeza que neste exato momento seu Bicho está cochichando em seu ouvido dizendo que tudo isso é uma bobagem sem tamanho. Que o melhor é mais do mesmo. Em time que está ganhando não se mexe. Pra quê arrumar sarna pra se coçar? Dá muito trabalho pensar. Pega uma cervejinha, bota uma música do Zeca Pagodinho e vai curtir a vida…


¹ Zona de Familiaridade – A conhecida zona de conforto não representa necessariamente um conforto físico ou mental. Não é a representação de um sofá gostoso pra se deitar. É por isso que eu chamo de Zona de Familiaridade. É o que estamos acostumados: bom ou ruim. O cérebro considera bom o que conhecemos e ruim o que não. Binário, como um computador

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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