Blog do Henrique Szklo

Criativo sem desafios definha e morre na praia do senso comum

A vida do criativo é uma intensa e interminável batalha contra nossa natureza, contra a zona de familiaridade, conhecida como zona de conforto

O ato de criar exige um desejo racional. Não se cria automaticamente. Mesmo as mentes mais brilhantes e acostumadas ao trato com a criatividade, para tentar desenvolver novas ideias, precisam fazer um esforço de vontade. Isso porque criar exige de nosso cérebro um empenho especial já que ele é programado originalmente para buscar novos caminhos apenas quando acredita estarmos em perigo. Fora este caso específico, quebrar padrões é um movimento não-natural que, portanto, deve ser evitado a todo custo.

A vida do criativo é uma intensa e interminável batalha contra nossa natureza, contra a zona de familiaridade, conhecida como zona de conforto. Nosso cérebro, mais do que atrelado ao senso comum, é fã da zona de familiaridade. Faz de tudo para evitar que tomemos um caminho nunca dantes percorrido.

O criativo é um salmão

Essa verdadeira força da natureza, para ser vencida, pelo menos por um breve espaço de tempo, exige que tomemos a decisão de nadar contra a corrente, que tenhamos força de vontade e consciência de que este movimento contrário é natural e que portanto não pode se tornar um impedimento para a produção de novas ideias.

Diante de um cenário tão desfavorável e inóspito, é normal que a maioria das pessoas não encontre forças nem meios para vencer essa barreira que se interpõe entre nosso cérebro e o pensamento criativo. Nem sempre porque não quer, mas porque não conhece maneiras e técnicas para sair do conformismo e pular o muro que a cerca.

Isso posto, chegamos ao tema principal deste artigo que é a necessidade de desafios para a mente criativa mostrar todo seu potencial. Sem um incômodo, uma necessidade premente e clara, mesmo os mais criativos se renderão à armadilha do cérebro. A zona de familiaridade é perniciosa e sedutora. Uma sereia cativante e dominadora. E o que tira o criativo deste estado de entorpecimento, dessa letargia? Um desafio.

Mas que tipo de desafio tem o poder de despertar o gigante adormecido? Como explanei acima, um dos momentos-chave para dar a partida no cérebro é a sensação de perigo, de que nossa integridade está em risco. É um desafio, mas não é deste que quero falar.

Para os mais puros de alma e críticos da veleidade humana, esta alternativa não é nada nobre. Basicamente, a mágica acontece ao provocarmos a reação do cérebro a uma característica comum aos animais, e portanto, presente também no comportamento humano que muita gente até considera um deslize moral: a competitividade.

Briga de foice

Ambientes onde os criativos são cercados por outros criativos, a necessidade de se destacar é imensa e obrigatória. A zona de familiaridade nestes locais é tão presente quanto uma a área de fumantes. Batalhas intermináveis são travadas e a luta pelo olimpo só dá uma folga nos finais de semana. E olhe lá.

Mas os “inimigos” em potencial não precisam compartilhar o mesmo teto para que o desafio se estabeleça. Uma notícia na internet sobre um trabalho criativo memorável de alguém do outro lado do mundo também é capaz de reacender a chama, despertando a fera selvagem que é a mente competitiva do ser criativo.

Coragem, meu filho, coragem

É claro que nem todo mundo reage da mesma forma a um desafio desta monta. E é aí que conseguimos separar os homens dos meninos. Alguns indivíduos não conseguem encarar este desafio com galhardia e, ao invés de tentar suplantar o oponente, trava e se contenta em desenvolver uma inveja doentia e autodestrutiva. A esses só cabe nosso desprezo.

Mas o procedimento mais heroico neste campo de batalha sangrento é daquele criativo que, em função de uma força incomum, consegue estabelecer desafios sem que sejam gerados por fatores externos. Aquele que cria desafios a si mesmo e os persegue quase que obsessivamente. Colocaria um Steve Jobs nesta categoria. No campo esportivo, Ayrton Senna seria outro. São dois personagens extraordinários, mas o extremado desejo de superar a tudo e a todos também pode levar ao infortúnio.

Como em tudo na vida, cada um escolhe até onde quer chegar. Cada um deve estar consciente do preço que está disposto a pagar pela sua utopia pessoal. Quanto mais alto o vôo… você sabe.

Concluindo

Saiba que a criatividade de alta performance não é nenhuma Disneylandia. Os ambientes são tensos e muito, muito competitivos. É realmente uma situação que poucos estão dispostos a viver. É claro que se o grupo for amistoso e transparente, a tensão será menor e talvez o ambiente seja menos pesado e o clima poderá permitir até uma certa oportunidade de diversão. Mas não sejamos ingênuos. De verdade, na natureza só os predadores se divertem.

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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