Blog do Henrique Szklo

Criar é a coisa mais fácil do mundo

Mas não fique muito animado. Todo o resto do (enorme) processo é osso

A parte mais fácil de todo o processo criativo é ter ideias. O problema é todo o resto, que ocupa, na verdade, um espaço muito maior – e muito mais pesado – em nosso tempo e espaço cerebral. Um deles é ter de lidar com os bloqueios que impedem que nosso pensamento flua livremente, sem culpa, sem preocupação, sem julgamento. Abaixo um exemplo de 3 obstáculos que considero primordiais para explicar a dificuldade da maioria das pessoas em usufruir das vantagens de ser uma pessoa mais criativa.

1) Identificar que uma ideia é uma ideia

Nossa cabeça vive um interminável emaranhado de pensamentos. Nossa mente por vezes parece caótica e desconectada de tudo. Mas não se engane: nosso pensamento é involuntário. Na maioria das vezes não o controlamos, sequer o produzimos. O máximo que o ser humano, diferente dos outros animais, consegue fazer, é, por meio da Razão, tentar construir pensamentos diferentes daqueles nascidos involuntariamente.

De qualquer maneira, só elaboramos de verdade as ideias e os pensamentos quando temos de comunicá-las, falando ou escrevendo. Do contrário, elas ficam se misturando em nossa cabeça feito um samba-do-crioulo-doido. Esse verdadeiro manancial de conteúdo que surge o tempo todo em nossa cabeça, traz em sua garupa uma série de conceitos. Um filtro muito poderoso – que eu chamo de Pedrão¹ analisa cada um deles e decreta qual é “certo” e qual é “errado”. E o critério que ele usa é sempre o mesmo: se pertence ao seu repertório (seu conjunto de padrões) está “certo”. Se não pertence, está “errado”. É simples desse jeito.

O Pedrão não faz julgamento de valor. É absoluta e implacavelmente pragmático. Portanto, quando você deflagra um pensamento diferente, fora dos padrões, o Pedrão imediatamente lhe passa uma mensagem: “É merda!”. E você, de forma ingênua, acredita que o pensamento é de sua própria lavra. E afirma categoricamente para si mesmo: “É merda!”.

2) Apresentar a ideia para outras pessoas

Como é penoso conceber uma ideia diferente, da qual você tem um milhão de dúvidas, e expô-la às pessoas! Afinal, o Pedrão inferniza sua cabeça solicitando certezas e garantias. Essa é a parte que mais aterroriza um ser humano. Às vezes você não tem dificuldade nenhuma em pensar diferente, mas trava na hora em que precisa colocar suas ideias à apreciação pública. Da mãe e do amigo não vale porque eles sempre irão gostar. Estou falando de ideias apresentadas a pessoas que não são necessariamente amigas: no trabalho, para clientes etc. Aí o bicho pega.

O medo, o pavor de ser execrado, na maioria das vezes, impede uma pessoa de levar suas ideias adiante. O Pedrão fica martelando o tempo todo em sua cabeça que vai dar tudo errado, que as pessoas vão detestar, que você vai ser ridicularizado. Mas isso é só uma tática dele. Mas não fique avexado com o cabra. Ele está só tentando proteger suas crenças. Defender o conhecimento adquirido em detrimento de um conhecimento novo, ainda não comprovado. E ele usa o medo para isso.

3) Saber vender uma ideia é tão (ou mais) importante quanto a própria ideia

A terceira grande dificuldade de todas as pessoas é vender suas ideias. Criar para seu interlocutor um ambiente favorável e vantajoso. Mostrar a ele que aquela ideia é tudo o que ele precisa. Demonstrar quase que matematicamente que aquela ideia específica é a melhor possível e que vai dar muito “certo”. Porém, não existe maneira de se garantir nada no mundo das ideias, principalmente sucesso e adequação. Portanto a dificuldade neste momento cresce de forma assustadora.

O sujeito precisa de argumentos racionais para vender um conceito que por vezes não é racional. Não vou dar aqui a receita de como vender uma ideia, até porque eu mesmo tenho sérias dúvidas de como se faz isso, mas é importante saber que muito dos fracassos criativos se deve mais ao método de apresentação do que à ideia em si. É um momento delicado e crucial na vida de uma ideia. É lá que se define se ela ganhará vida ou voltará para uma gaveta onde permanecerá pelo resto de seus dias.

“No mundo das ideias não existem certezas. Apenas esperança.” Henrique Szklo

Muitas pessoas que mesmo sem produzir uma ideia criativa ao longo de toda a sua vida são profissionais de sucesso. Sabem vender a porcaria que criam como se ouro fosse. Na mesma medida, muita gente talentosa não consegue juntar dois tostões a despeito de sua extrema criatividade: não sabem vender o que criam.

É bom saber que existem muitos outros fatores que influenciam a aprovação ou reprovação de uma ideia. Não podemos nunca esquecer que a cabeça do ser humano é um ninho de ratos onde o aparente caos reina soberano. Mesmo as pessoas mais equilibradas e previsíveis têm um carnaval de pensamentos sapateando dentro de suas cabeças. Por isso, a glória ou o vexame dependem do momento.

Se você, por exemplo, for apresentar sua ideia para uma pessoa que acaba de receber uma excelente notícia, é muito provável que as chances de a ideia ser aprovada aumentem sensivelmente, mesmo que não seja muito boa. Ao contrário, se o interlocutor brigou com a mulher, bateu o carro e pisou no cocô do cachorro, mesmo se sua ideia for excepcionalmente boa e adequada terá dificuldades extras para avançar.


1  Pedrão – Entidade responsável por controlar nosso comportamento. Ele é nosso filtro social. Tudo o que fazemos, pensamos e agimos passa por seu crivo, para que estejamos sempre de acordo com nossa programação mental e com os padrões estabelecidos por nossos grupos sociais. Ele é um dos maiores entraves para o desenvolvimento de novas ideias.

Leia seus artigos contra a Criatividade aqui.

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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