Blog do Henrique Szklo

Importância do ambiente no processo criativo (Parte 1)

Primeira parte do artigo sobre como somos influenciados pelos ambientes que frequentamos

Renascença: um ambiente vigoroso onde a criatividade floresceu

Disputa do sacramento, de Rafael, no Museu do Vaticano

Um momento marcante e determinante de mudança de vetor dos destinos da humanidade foi a Renascença, ou o Renascimento. Mas o que aconteceu? Um mero acaso do destino? Uma sorte incrível de nascerem milhares de pessoas criativas num mesmo espaço e tempo? Claro que não. Tudo foi resultado de um processo histórico, que proporcionou a criação de um ambiente fértil, muito favorável à novas ideias, à arte, à Criatividade, enfim, à Subversão. A realeza, detentora do poder econômico à época, começou a patrocinar artistas para criarem obras sob encomenda. Sem saber e sem intenção eles criaram uma revolução. E pagaram por ela.

As pessoas que geralmente têm medo de se expor, de expor suas ideias para um público desconhecido, prefere não arriscar e procura outros caminhos para sua vida. Quando estas mesmas pessoas percebem que a receptividade para o novo é grande, seu medo diminui e elas começam a se sentir capazes de realizar obras criativas. Na época da Renascença era “certo” ser criativo. Era “certo” ser artista. Era “certo” ser subversivo. Isso fez com que todas as artes florescessem na Europa e mudaram o rosto da humanidade. Após uma época longa de repressão e controle religioso, onde era “errado” criar, a Criatividade explodiu na Europa, mesmo que ainda se utilizasse de temas religiosos para seu desenvolvimento.

Concentração de empresas de tecnologia no Vale do Silício

Vale do Silício: a Firenze do século 21

Hoje podemos até considerar que vivemos uma Renascença Digital lá no Vale do Silício, Califórnia, Estados Unidos. Um polo de tecnologia que estimula e inspira pessoas do mundo todo a desenvolver produtos e serviços que estão aos poucos mudando a cara do mundo. Dizem que o astral do lugar é diferente e que realmente estimula as pessoas a trabalharem em projetos de inovação. Hoje, são milhares de empresas concentradas em um mesmo pedaço de terra.

O que é um ambiente

Concordo plenamente com a corrente filosófica do determinismo geográfico que afirma que o homem é produto do meio. E quando eu me refiro ao ambiente, estou querendo dizer a mistura entre o local físico onde você se encontra e o espírito social pesquisado por Solomon Asch. Estes dois elementos transformam a capacidade de qualquer pessoa, para mais ou para menos, dependendo das circunstâncias. Acredito até que o ambiente é um dos mais importantes influenciadores do desempenho criativo de indivíduos e grupos. Resultado, principalmente, de nossa preocupação excessiva com a Opinião dos Outros. Mesmo que inconsciente.

Ambiente físico, o lugar nada comum

O lugar onde você está pode ajudar, atrapalhar ou ser indiferente. Grande novidade, não? Pois é, mas é que muitas vezes não nos damos conta de que uma coisa simples e óbvia como esta pode fazer toda a diferença no resultado de um trabalho. É claro que você consegue trabalhar em uma espelunca, mas garanto que se estiver em lugar “criativo”, agradável, aconchegante, acolhedor, cativante e cheio de vibração, você vai render muito mais. Não só com relação à Criatividade, mas no seu desempenho como um todo.

Você já deve ter visto aquelas fotos na internet mostrando, por exemplo, os escritórios do Google. Incomum, diferente, provocador e estimulante. E é claro que a empresa consegue transmitir com mais facilidade o seu conceito, a sua marca registrada, que é a inovação. Quando entramos num ambiente desses, sentimos um comichão, um desejo inesperado de criar, de sentar em uma mesa qualquer e começar a trabalhar. Essa é a influência do ambiente físico. O inverso também acontece: um lugar feio, desagradável e opressor certamente vai nos influenciar negativamente no que diz respeito ao desempenho criativo. Imagine-se trabalhando em locais como aquelas repartições públicas que não reformam há pelo menos uns 30 anos. Meu-deus!

Ambiente Social, pessoas interferindo no astral

Esse tem uma influência enorme. É o ambiente que interfere diretamente não só no seu trabalho mas no seu próprio pensamento. Não nos esqueçamos que a necessidade do ser humano de integrar os grupos de interesse nos faz capazes de mentir (para os outros e para si mesmo), de nos enganar, dissimular, de mudar simplesmente de opinião. Tudo por causa da Opinião dos Outros (que eu falarei em artigos mais para frente).

“Se o ambiente for favorável, a capacidade criativa geral será ampliada. E o contrário, idem.” Henrique Szklo

Se o ambiente social for favorável ao pensamento criativo, qualquer pessoa que seja introduzida no grupo vai naturalmente “ficar mais criativo”. E o inverso também se aplica. Imitamos os grupos a que pertencemos, mesmo sem perceber. Inclusive no quesito competência. Repare que quando um time de futebol está jogando bem, até aqueles jogadores mais ou menos dão conta do recado. Aí, basta eles mudarem de clube para retornar à dura realidade: eles são mais ou menos.

Sotaque Cognitivo, a imitação inconsciente

A obrigatoriedade que o nosso genoma nos impôe, o “Viva e grupo”, promove o inusitado sentimento que, de tão sutil e delicado, sequer chegamos a perceber. Parte do mesmo princípio do sotaque que vamos modificando, sem perceber, quando convivemos com grupos que falam diferente de nosso grupo original.

Abriu uma vaga aqui. Tá afim?

Posso dizer, sem medo de errar que somos puxa-sacos inconscientes. Copiamos o máximo que pudermos sem nos darmos conta. Do ponto de vista da Criatividade, o Sotaque Cognitivo ocorre quando por alguma razão frequentamos grupos muito criativos, em pouco tempo estaremos um pouco mais propensos a ter ideias do que éramos antes. E o inverso também é real. Sem percebermos, ao frequentarmos grupos conservadores, aos pouco iremos nos fechando e nos comportando como a maioria.

Leia a segunda parte deste artigo

 

Mostre Mais

Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Botão Voltar ao topo
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Fechar
Fechar

Bloqueador de Anúncios Detectado

Considere dar uma força pra gente desabilitando seu bloqueador de anúncios