Blog do Henrique Szklo

A democracia não passa de uma utopia esquizofrênica

Somos tão competitivos que o desejo de ser igual ao outro não é uma coisa palpável

Segundo a ONU, a democracia se define como a liberdade, o respeito aos direitos humanos e o princípio da organização de eleições honestas e periódicas. Valores abraçados alegremente pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo artigo primeiro diz: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos…” Já o artigo 7 diz “Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei…”

Segundo o cientista político estadunidense, Robert Dahl: “a democracia é um sistema político cujos membros se consideram iguais uns aos outros…”.

Os Estados Unidos, autodeclarados o país mais democrático do mundo, no segundo parágrafo de sua constituição afirma: “Consideramos estas verdades como evidentes, que todos os homens são criados iguais…”

Estas citações servem para que comecemos um raciocínio partindo de um conceito que é consagrado pelos países civilizados e já faz parte do senso comum contemporâneo, ou seja, é um padrão mental muito enraizado em nossa cultura.

A intenção é boa, mas…

Devo dizer que democracia é um conceito ambíguo demais, pra dizer o mínimo. Na verdade acredito que é um dos Padrões Esquizofrênicos que carregamos em nossa mente, dos mais perturbadores. Vamos por partes. Se formos levar ao pé da letra o que o termo democracia significa, vemos nas citações acima, entre outros aspectos, que neste sistema todos são considerados absoluta e inequivocamente iguais. Ninguém tem mais ou menos direitos e deveres do que os outros. Só pessoas com limitado nível de evolução intelectual ainda resistem a esta preciosa regra social.

Pois bem. Não vou nem entrar na questão do poder econômico que não é esse o tema deste artigo. Quero falar da questão comportamental do ser humano. Você liga a televisão, ouve o rádio, navega na internet, conversa com pessoas, assiste palestras e lê livros que dizem que para ser bem sucedido em sua vida e carreira você precisa se destacar na paisagem. Precisa ser diferente dos outros. É estimulado a acreditar que é especial, que não pertence à vala comum dos seres humanos. E que, se não for, deve se preocupar em ser. Que o sucesso o remeterá a um outro patamar social, onde você será considerado uma pessoa melhor e poderá usufruir de privilégios e benesses diversas. É a febre insana dos cursos de liderança. Parêntesis: se todo mundo fizer curso de liderança, quem vai obedecer? Fecha parêntesis.

Os opostos não se atraem

A “democracia” e a “liderança” são dois conceitos sólidos, aceitos pela sociedade e por seus membros, mas que, desgraçadamente, tratam do mesmo assunto em direções diametralmente opostas. Estamos “certos” e “’errados”, simultaneamente. Prova disso é que as pessoas admiram igualmente quem trata todo mundo como igual (mesmo que falsamente), mas também quem se destaca por alguma razão qualquer. E se a mesma pessoa carrega estes dois comportamentos, então, vira deus. Mas não tem jeito: ninguém é capaz de amalgamar estes dois padrões de forma sincera. São padrões impossíveis de harmonizar, por serem, como disse, opostos, provocando em todos nós um elevado nível de estresse e ansiedade.

“Democracia é o sistema político que faz com que as pessoas acreditem que ao eleger o carteiro terão controle sobre os rumos do correio. “

Pare para pensar 7 minutos e veja como essa contradição violenta interfere em sua vida de forma intensa e constante. Você quer ser educado, civilizado, sem preconceitos. Quer acreditar que são todos iguais mesmo. Mas basta alguém cometer alguma gafe – sob sua ótica – para se você se sentir superior, considerando que você é diferente, que jamais faria uma coisa destas.

A democracia não está conectada com a realidade

A natureza foi extremamente eficiente em garantir que não sejamos todos iguais, de jeito nenhum. Somos parte da mesma espécie, mas como indivíduos não temos seres vivos análogos. DNA, fundo de olho e digitais estão aí para comprovar. Como se não bastasse, nossa genética nos obriga a competir. Somos eminentemente competitivos, já que essa é uma cláusula pétrea das leis da natureza, onde o modelo de funcionamento pressupõe a existência de competição entre seus elementos para sua própria evolução e aprimoramento como sistema. Não adianta espernear. Nós não somos iguais.

E a competição se dá em qualquer situação, por mais prosaica que seja. A comparação com os outros é inevitável, principalmente quando temos necessidade de nos sentirmos melhores. É claro que às vezes nos comparamos aos outros e nos sentimos piores, mas, em geral, acabamos por encontrar algum defeito em quem nos provoca uma certa sensação de inferioridade. Aquela moça é linda, maravilhosa, famosa, rica, mas tem joanete.

É claro que, como somos diferentes, uns são mais competitivos do que outros. Mas todos somos. Quem não é, não consegue sobreviver. Sem contar que o sucesso do outro geralmente nos estimula a melhorar. Na criatividade, por exemplo, a competição é fundamental. Quando testemunhamos ideias que consideramos melhores que as nossas, batalhamos para superá-las no momento seguinte. O ambiente criativo que não tem competição, tenderá ao acomodamento e diminuição da excelência criativa. Mas isso serve, na verdade, para todos os ambientes. Se isso é bom ou ruim, já não sei dizer.

Fato é que a democracia não existe na natureza. É um conceito que foi inventado pelo homem para tentar equilibrar as forças nas sociedades, invalidando a lei do mais forte. A intenção, óbvio, é boa. Mas como vai contra o que a natureza preconiza, jamais funcionará adequadamente. Talvez fosse necessário criar outro sistema que mantenha a dignidade geral, sem provocar tantas dores de cabeça.

Decida o que é melhor pra você. Danem-se os outros

Acredito que nos casos de Padrões Esquizofrênicos, devemos escolher uma das duas versões e abandonar a outra. Do fundo da alma, do fundo do coração. Acreditar piamente que todos são iguais, e praticar isso de forma efetiva 24 horas por dia ou assumir que se acha diferente mesmo e tudo bem. Talvez você não seja considerado uma pessoa evoluída, politicamente correta, agradável, mas pelo menos vai conseguir um pouco mais de paz e equilíbrio mental. Mas não precisa se preocupar: “evoluído”, “politicamente correto” e “agradável” são apenas padrões.

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Henrique Szklo

Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação, mas hoje já está curado. É Filósofo da Criatividade, professor, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria – NeuroCriatividade Subversiva – e seu próprio método – Dezpertamento Criativo. É colaborador no site Proxxima (M&M), no Blog Café Brasil e coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palmeirense.

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