Blog do Henrique Szklo

A criatividade fez o ser humano parar de evoluir geneticamente

Um dos efeitos da inteligência e criatividade do ser humano é tentar dominar e controlar a Natureza. Como resultado subverteu ou tenta subverter várias de suas regras. E no quesito evolução temos forte atuação

Existe uma lógica na Natureza que pressupõe a depuração das espécies com objetivo de incrementar sua capacidade de adaptação às situações externas. A Natureza é exigente e implacável. Não se adaptou? Seu destino inexorável é o descanso eterno. Foi assim que organismos unicelulares se transformaram, bilhões de anos depois, em todas as 8,7 milhões de espécies conhecidas habitando nosso planeta atualmente.

Adaptação é a chave de todo o sistema

E como mais ou menos dizia Darwin, não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive; é aquele que se adapta. E fica claro que ele não estava se referindo aos seres humanos nesta lógica. Um mamífero primata inexpressivo, que usou sua inteligência e criatividade para se catapultar até o topo da cadeia alimentar.

Estudos mostram, por exemplo, que o Homem de Neandertau tinha um cérebro maior do que o nosso, portanto com um potencial muito maior de desenvolver inteligência e processos cognitivos. Porém, o cérebro é um grande consumidor de energia, exigindo para si, pelo menos 25% de nossa energia corporal, em repouso. Um cérebro maior exige mais energia. Mais energia exige mais comida. Provavelmente, nosso primo não foi capaz de manter uma dieta alimentar suficiente para sobreviver e acabou perecendo. Era mais forte, mas não foi capaz de se adaptar.

Se fizer uma pesquisa rápida, vai descobrir que o Homo sapiens não mudou nada desde o seu surgimento, há inexpressivos 200 mil anos, levando-se em conta o relógio da evolução. Nossa adaptação foi eminentemente tecnológica e social. Física e fisiologicamente não mudamos nada. Nossa virtude é saber criar e utilizar ferramentas. São elas que nos proporcionam essa absurda capacidade de adaptação.

Alguém pode dizer que estamos evoluindo sim, pois estamos ficando mais altos, durando mais tempo, diminuindo os pelos (no meu caso, por exemplo). Certo, mas isso nada tem a ver com o processo natural de evolução de uma espécie. É resultado apenas do saneamento básico, do tipo de alimentos e da medicação a nós disponibilizada. Estudos mostram que uma espécie em geral, precisa de centenas de milhares de anos (chegando até a um milhão), para se transformar de forma perceptível.

Por fora, bela viola…

Como, portanto, toda a nossa adaptação é caracterizada em elementos externos ao nosso organismo, podemos dizer que utilizamos um processo de exo-adaptação.

Os animais ditos irracionais, tirando aqui raríssimas exceções, não usam ferramentas como nós. Eles apenas conseguem (quando conseguem) se adaptar se seus organismos se transformam a ponto de se tornarem compatíveis com a exigência do ambiente. E isso, como vimos, demora um longo longo tempo. Podemos, neste caso, dizer que os animais irracionais, então, se utilizam de um processo de intra-adaptação.

Criatividade é uma ferramenta de adaptação

Não temos a capacidade de criar por acaso. Foi uma resposta biológica à uma necessidade. Em algum momento da nossa história, começamos a desenvolver a habilidade de solucionar problemas com engenhosidade. O desenvolvimento cognitivo do Homo sapiens foi seu grande diferencial competitivo.

Tudo o que o homem criou e cria até hoje, tem como propósito melhorar seus status em relação ao ambiente. Como não temos asas, criamos o avião. Por não termos pele grossa, criamos roupas e aquecedores. Já que não temos guelras, criamos submarinos e cilindros de oxigênio. Nosso corpo não é dos mais fortes para lutar, então criamos armas. Por não aguentarmos nos movimentar a grandes distâncias, criamos veículos. Óculos, móveis, talheres, eletricidade, controle remoto, geladeira, fogão, computador, relógio, tudo, absolutamente tudo o que de alguma forma facilita nossa vida, ou seja, nos ajuda na árdua tarefa de adaptação, surgiu graças à criatividade de alguém.

O mal não existe. Só a lógica

E depuração do gene também é uma forma de se adaptar, promovendo a manutenção dos mais capazes e eliminando os que demonstram não resistir às circunstâncias. Não há paixão envolvida. É um processo lógico, quase matemático. Por isso, os genes, como a Natureza, também são exigentes e implacáveis. Leões machos, quando conquistam um bando novo, depondo o alfa anterior, são radicais em sua primeira providência como novo regente: perseguir e matar todos os filhotes do ex. E como prêmio, imediatamente após se livrar dos pequenos, todas as fêmeas entram no cio. Maldade? Não. Pela lógica da Natureza, absolutamente pragmática, vencer a batalha significa que o gene do vencedor é melhor que o do derrotado, portanto, não há razão para manter a herança genética de um ser geneticamente inferior. Em algumas espécies, a mãe chega a parar de alimentar o filhote que demonstra não ser forte o suficiente e só dá comida para aqueles com potencial de crescimento e vitalidade.

All lives matter

Um dos efeitos da inteligência e criatividade do ser humano é tentar dominar e controlar a Natureza. Como resultado subverteu ou tenta subverter várias de suas regras. E no quesito evolução temos forte atuação.

Em função dos fortes laços sociais e emocionais desenvolvidos nas civilizações modernas, criou-se o consenso de que todo ser humano tem o direito de sobreviver, independentemente de suas capacidades adaptativas. Pessoas com doenças genéticas, com deficiência (física ou intelectual), todo mundo pode e deve ser preservado. Na maioria dos países, a eutanásia é proibida mesmo para casos de indivíduos em coma por muitos anos. E por dar tanta importância à vida, o ser humano tem usado sua criatividade para produzir intermináveis inovações, tornando a essa nobre missão cada vez mais bem-sucedida.

É claro que o caminho percorrido pela humanidade em busca da preservação de todos os indivíduos da espécie é inegavelmente digno e motivo de elogios e orgulho. Porém, este comportamento se contrapõe ao modelo natural do processo evolutivo, que pressupõe a sobrevivência apenas de indivíduos “melhores”, conforme a lógica pragmática e implacável da Natureza. Eu, por exemplo, não sobreviveria com minha depressão se vivesse em um ambiente selvagem; sem terapia, apoio familiar e, principalmente, remédios. Qualquer animal com falta de energia (consequência principal da depressão) no ambiente inóspito da selva, não chegaria certamente à idade adulta e, portanto, não produziria descendentes com seu gene prejudicado. Ponto para a Natureza.

A conclusão é que graças à criatividade, o modelo de depuração de nossa espécie desenhado pela Natureza está sendo substituído pelo modelo humano. Criamos uma nova lógica. Ponto para a humanidade.

Brincando de Deus

A criatividade impediu nossa evolução genética, mas só até recentemente. Não sei dizer se isso é bom ou ruim, mas de uns tempos para cá, ela mudou de lado e está com o firme propósito de fazer Darwin revirar-se em seu caixão, incorporando de vez um esforço concentrado pela intra-evolução da nossa espécie, acelerando o que demoraria centenas de milhares de anos para acontecer em apenas algumas décadas. Só mesmo a criatividade para patrocinar uma ousadia dessas.

Como todo criativo, somos rebeldes e atrevidos. Não aceitamos a evolução como nos é imposta. Queremos administrar nosso próprio processo evolutivo. Remédios, próteses, engenharia genética, tudo para aperfeiçoar nosso gene na tentativa de nos transformar em uma super raça. Mais fortes, mais inteligentes, mais saudáveis, sem doenças genéticas, físicas ou mentais, mais resistentes e, quem sabe, imortais.

Deus não deve estar nem um pouco satisfeito com nossa explícita demonstração de desprezo por suas ideias.

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG), graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP e pós-graduado em Neuropsicologia pela FAMEESP, exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é pesquisador da criatividade e do comportamento humano utilizando uma abordagem neuropsicológica do assunto. Além disso é escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. É professor do MBI da UFSCar e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade), é palmeirense e não-negacionista.

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