Ópera Bufa

Porque você precisa contratar um redator judeu

Resolvi procurar emprego de um jeito diferente em 1993 e criei este anúncio. Além de não conseguir o emprego, quase perdi o que eu tinha


Divertimento, informação e lavagem cerebral. Em 2004 resolvi criar um site de humor chamado Ópera Bufa. Mas a brincadeira ficou séria quando o UOL me convidou para me tornar um de seus sites oficiais de humor. Quatro anos depois, cansado de trabalhar com graça e de graça, encerrei as atividades do site. Nesta seção você vai ver uma seleção do melhor do site. E do pior também!



Usurário, perverso e malvado. Estas são apenas algumas definições para a palavra JUDEU no Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa. Já no Aurélio, entre outras gentilezas, JUDEU quer dizer mau, avarento e até uma espécie de tutu de feijão e bolo de milho. Mas deixando de lado os elogios, gostaria de apresentar argumentos irrefutáveis das vantagens e benefícios de se contratar um redator de origem judaica.

Em primeiro lugar, os maiores gênios da humanidade sempre foram judeus. Einstein, Freud, Sammy Davis Jr. e Silvio Santos são apenas alguns exemplos. Eu mesmo já recebi centenas de elogios explícitos ao meu talento criativo. Todos feitos por minha mãe, eu sei. Mas já é um bom começo. Mesmo porque, mamãe sempre foi uma pessoa muito justa. Ela jamais mentiria pra mim.

Apesar disso, não nos consideramos melhores do que ninguém. Ao contrário. O nosso complexo de inferioridade é tão grande, tão grande que, com certeza, é o menor do mundo.

Outra vantagem inegável é a tradição que nós temos na arte da redação. O Velho Testamento está aí para não me deixar mentir. Tudo começou com uma concorrência entre povos. E, como você já deve ter ouvido falar, nós fomos o povo escolhido. E olha que o Cliente era do tipo perfeccionista. A bem da verdade, Ele era meio metido a Criador, o que prejudicou um pouco o resultado final. Vivia dizendo Eu criei isso, Eu criei aquilo, antes de Mim era o caos, etc. E apesar de todo esse egocentrismo, de toda essa megalomania, não consta nenhum registro de que algum dia Ele tenha entrado sequer num short list de Cannes.

Mais uma característica marcante do nosso povo: todo judeu que se preze é um excelente bode expiatório para ser usado em momentos de crise. A agência vai mal, manda embora aquele judeu pé frio. A agência vai bem, manda embora o judeu invejoso. A agência fica na mesma, manda embora o judeu empata-foda. Enfim, demissão sumária de judeus resolve qualquer crise interna de uma agência com rapidez e eficiência surpreendentes. Com a vantagem de o patrão saber que não haverá traumas por parte do dispensado. Nós, judeus, já estamos acostumados com cortes. Mesmo porque passamos por um bem dolorido já na primeira semana de vida. Sem anestesia e com a família toda festejando. É por aí que se vê como é bom ter sempre uma boa quantidade de judeus no bolso do colete. Pensando bem, no bolso do colete eu não aconselho.

Vai poder até causar inveja em seus amigos fazendo a seguinte pergunta: “Você já viu um judeu pobre?”. Diante da resposta evidentemente negativa, será só emendar: “Não só conheço um, como ele trabalha para mim”. Depois ria a vontade, até se dar conta de que você também acha muito estranho um judeu pobre e que ainda por cima trabalha para você.

Não se esqueça que, segundo a crença popular, a capacidade de acumular dinheiro está no sangue do judeu. Mas nós não somos mercenários. Gostamos muito de dinheiro, é verdade. Mas apenas para conseguir aquelas pequenas coisas que tanto amamos, como, por exemplo, dólares, ouro e ações na bolsa. Os mais preconceituosos bradam ferozmente que para um judeu sua conta bancária é a coisa mais importante do mundo. Mentira. Se existe algo que nós valorizemos mais do que nosso próprio dinheiro é o dinheiro dos outros. Sim, faz parte da nossa tradição filantrópica acolher com o maior amor e carinho todo o dinheiro desamparado, abandonado ou menosprezado por outras famílias. Sob este aspecto em particular, a convivência com judeus pode trazer ensinamentos verdadeiramente valiosos a donos de agências, clientes e amigos.

Pronto. Está tudo aí, sem reservas. Abri meu coração e o coloquei neste anúncio. Expus a você minha intimidade, minha visão de mundo, minhas convicções mais profundas e meus inabaláveis preceitos religiosos. Por isso, se você for daqueles que não gostam de judeus nem para bolo de milho, fique sabendo que não vou admitir preconceitos gratuitos. Já um preconceito bem remunerado me fará reconhecer na conversão uma excelente alternativa para a nossa despropositada divergência.

Mas, se por outro lado, além de acreditar em tudo o que eu disse, você ainda sentir uma grande admiração por nós e fizer questão absoluta de trabalhar com profissionais de ascendência judaica, com certeza eu vou achar que você é muito esquisito, mas terei imenso prazer e orgulho em ser o representante do meu povo em sua valorosa empresa. Agora, vê se deixa de ser judeu e me faz uma boa proposta.

Henrique Szklo (011) 255-3787
Obs: ligações a cobrar não serão toleradas

Anúncio produzido em 1993, depois publicado no site Ópera Bufa

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Henrique Szklo

Nascido em Belo Horizonte (MG) e graduado em Publicidade e Propaganda pela FAAP, Henrique exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e Diretor de Criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria - NeuroCriatividade Subversiva - e seu próprio método - Gestão do Pensamento. É professor no MBI da UFSCar, escreve no site Proxxima (M&M), é coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e Sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. Tem 8 livros publicados (humor e criatividade) e é palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. É palmeirense.

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